MATTOS, MALTA OU MATTA?
Alusio Azevedo

romance ao correr da pena.



De um cavalheiro cujo nome ocultamos, no s a seu pedido, como porque
seria imprudente e talvez mesmo perigoso revel-lo, recebemos uma
importantssima carta, a que damos publicidade porque o seu assunto se
prende intimamente  gravssima questo - Castro Malta.

 possvel, provvel mesmo, que das obsequiosas informaes desse
cavalheiro resultem novos elementos de convico que auxiliem o desfecho
dessa questo, concorrendo para descobrir esse tenebroso mistrio, que
tanto se empenha a Polcia em ocultar.

Ao nosso amvel informante pedimos desculpa de havermos publicado
integralmente a sua carta e que nos remeta sem detena quaisquer
informaes novas, que porventura venha a colher.

Eis a carta:

Sr. Redator d A Semana.

Posto que apenas ligeiros laos de cortesia liguem as nossas relaes,
tomo a liberdade de dirigir-me a V. S. porque entendo ser esse o melhor
caminho para chegar aos fins a que desejo chegar.

Trata-se de merecer de V. S. um obsquio, cuja realizao, que no lhe
custara grande sacrifcio, trar no entanto para este seu criado
vantagens incalculveis, e mais ainda como que o gozo do cumprimento de
um dever.

O meu desejo  que V. S. d na sua esperanosa Folha uma notcia, uma
simples notcia, a respeito de certo fato, insignificante na aparncia,
mas em verdade de um grande alcance social e poltico. E, para que V.
S. possa dar tal noticia com toda a segurana, preciso  que eu fale de
outros fatos, sobre os quais no daria palavra, se imprevistas
circunstncias no me obrigassem a semelhante coisa.

Em primeiro lugar, Sr. Redator; convm lembrar-lhe que eu sou casado;
que, se no tenho filhos  porque morreu o nico que me chegou a nascer;
e que at hoje tenho desempenhado com toda a retido e todo o zelo o
modesto emprego que conquistei a concurso na Secretaria em que ainda
ontem tive o prazer de encontrar V. S. pedindo informaes a respeito
de certa autoridade, envolvida na grande questo que neste momento
preocupa a populao inteira desta vastssima cidade - a questo Malta.

Alm do que fica dito,  pblico e notrio que no sou homem de
escndalos, que no me embriago, nem ando com francesas e que, em todo o
princpio do ms, logo ao receber o meu ordenado, pago pontualmente aos
meus fornecedores, e guardo o resto do dinheiro para as despesas de
bondes e de outras coisas que no admitem crdito.

V, pois, V. S. que sou homem de bons costumes, que vivo s claras,
como se costuma dizer, e que. por conseguinte, se me acho metido numa
questo suspeita e de todo o ponto transcendental,  simplesmente porque
assim o quiseram outros, sem que eu, dou-lhe a minha palavra de honra,
tenha de modo algum contribudo para isso.

Sr. Redator, disse-lhe j que sou casado, mas ainda no acrescentei que,
h coisa de ano a esta parte, sou o mais desgraado dos maridos. H um
ano que me entrou pela primeira vez no crebro o demnio da desconfiana
a respeito das virtudes de minha mulher, e desde ento a esta data no
consigo um momento de repouso.

Imagine V. S. que eu, uma tarde, por sinal que era sbado, entrando em
casa um pouco mais cedo do que de costume, encontrei minha mulher
escondida debaixo da escada, entre uma barrica vazia e um colcho que
servia s vezes para algum amigo que porventura pernoitasse conosco.

Perguntei-lhe que fazia ali; ela, em vez de responder, abriu a chorar; e
escondeu o rosto.

J bastante intrigado com a brincadeira, puxo-a pelo brao e observo o
lugar deixado por ela, a ver se descobria a explicao daquele fato
estranho.

A princpio nada encontrei, alm da barrica vazia e do colcho; mas
empurrando este com o p, dei com um nmero da Gazeta de Noticias, para
o qual no teria atentado, se minha mulher no soltara um grito,
justamente na ocasio em que eu o tomara com avidez.  

Eu, porm, sem lhe dar tempo a arrancar-me das mos a folha, ganho o meu
quarto de carreira, fecho-me por dentro, dando duas voltas  fechadura.

Era isso mesmo todavia o que desejava e o que conseguira a espertalhona,
porque, segundo fui mais tarde informado, ela, em bem no me viu fugir
com a Gazeta, tornou logo ao ponto em que a encontrei e, rebuscando com
a mo por detrs da barrica, da sacou um objeto e com ele fugiu para o
poro da casa.  

Esse objeto, vim depois a descobrir; era um pequeno cofre de madeira
preta com embutidos de metal amarelo, contendo o qu ainda no sei.

Minha mulher; em seguida a esse fato, principiou a no me querer encarar
de frente e a evitar comigo a menor troca de palavras. Enterrava-se no
quarto das seis s seis, e, se eu a outra qualquer hora tentava cham-la
a mim, escondia a cabea nos travesseiros e punha-se a soluar; que era
uma coisa por demais.

Aborrecido, triste, completamente desarticulado dos meus hbitos,
deixava-me ento ficar pelos cantos, a cismar; a enfiar cachimbadas,
sempre em busca de descobrir a ponta daquele mistrio, que j me tirava
regularmente o sono e o apetite.

E minha mulher - nada de desembuchar. A princpio lancei mo da
violncia: ameacei-a com os punhos cerrados, falei no meu revlver de
seis tiros; depois - empreguei meios brandos: fiz-me terno, pedi;
choraminguei; em seguida - recorri  astcia: armei ciladas, fiz planos,
espiei pelas fechaduras, andei na ponta dos ps, apalpei as trevas e
procurei agarrar um gesto dos seus, um sorriso, ou uma dessas palavras
indiscretas que s vezes nos escapam na inconscincia do sonho. Mas tudo
isso foi intil; tudo isso foi trabalho perdido. Cresciam as dvidas e
com elas o meu padecer e as minhas tristezas.

Ento, meu consolo nico era um papagaio que ela trouxera quando nos
casamos. Mas, ai!, esse mesmo, desde que a dona se enterrara no quarto,
estava quase to triste como eu e no queria dar  lngua, nem  mo de
Deus Padre.

Afinal, um dia, quando, de furioso que estava, at me dispunha a
torcer-lhe o pescoo, o pobre bicho encrespou as penas da nuca, fechou
voluptuosamente os olhos, abriu de leve as asas e disse, como quem
suspira.'

- "Joo Alves!''

Eu voltei- me para ele o mais ligeiro que  possvel:

- Hein?! Como?! Fala, fala, minha rosa! Peo-te por amor de Deus que
fales! Vamos! Quem passa, meu loiro?...

Mas o maldito abaixou a cabea, e calou o bico por uma vez.

Entretanto, aquelas duas palavras que lhe escaparam, aquele nome, eram
um indicio, uma descoberta, um ponto de partida. Se o papagaio as
pronunciara to bem, era sem dvida porque de muito se havia
familiarizado com elas.

Ora, eu nunca levara a casa nenhum Joo Alves; pela vizinhana tambm
no me constava que houvesse gente com esse nome... de quem pois o
ouvira o papagaio?...

Esta era a minha questo, este era o meu ponto de partida.

Mas, que noites, Sr. Redator! que noites passei eu a pensar naquelas
duas palavras!... Quantas e quantas suspeitas no me passaram pela
mente. Ah! S pode compreender o peso de uma dvida dessa ordem quem
como eu a carregou nos ombros por tantos dias.

"Joo Alves! Joo Alves!" Estas duas palavrinhas cosiam-me os miolos,
como se uma fosse a agulha e a outra o fio!

Uma noite surpreendi-me defronte de minha mulher, a berrar-lhe contra o
rosto.

- Tu me hs de dizer quem  o Joo Alves! ou eu te beberei at a ltima
gota de sangue!

Minha mulher soltou um grito e caiu de costas na cama, sem sentidos.
Corri  despensa em busca do vinagre, mas, de atrapalhado que estava,
demoro-me um pouco a encontrar o galheteiro e, quando volto ao quarto,
j no achei ningum.

Percorro toda a casa, revisto os mveis, os cantos, o quintal, o poro -
nada! A prfida havia-se escapado pela porta da cozinha.

Sa, fui  venda pedir informaes, indago pela vizinhana, e s no dia
seguinte descubro que a miservel fugira com um tal, Joo Alves que h
muito a convidava para isso.

Ah! O papagaio tinha razo!

Armei-me, passeia noite a fariscar-lhes a pista. Pela manh, depois de
quebrar a cabea em procur-los, vim a saber que os infames estavam
refugiados a dois passos de minha casa, numa hospedaria que ficava ao
canto da rua.

Corri para l espumando de raiva, meti ombros  porta, entrei; mas os
fugitivos j l no estavam e deles s havia um vestgio importante. Foi
um carto de visita que o amante de minha mulher deixara ficar por
esquecimento.

Pois bem, Sr. Redator, nesse carto estava escrito "Castro Matta". E
estes dois novos nomes, ligados aos que pronunciara o papagaio.
aproximam-se muito singularmente do nome por extenso daquele clebre
homem que hoje os jornais com tanto afinco procuram descobrir. E agora,
custe o que custar hei de desencav-lo; no porque me interessem as
questes pblicas, mas porque esse Joo Alves de Castro Matta h de
sofrer pelo que me fez.

 isso. Sr. Redator. o que por ora lhe tenho a comunicar e do que, peo,
laa uma pequena noticia, escondendo os pontos mais privados desta
carta. E. se V. S. quiser ligar o seu esforo ao meu, havemos de dizer
ao pblico o que foi feito do Malta ou Matta. porque, segundo as ltimas
informaes que colhi e que amanh lhe enviarei, cada vez mais se
justificam as minhas suspeitas sobre a identidade do grande patife.

Pelo que eu lhe for dizendo, ver V. S. que estou a par de tudo e que
os mau culpados nesta questo no so os que mereceram as maiores
acusaes da imprensa.

Consola-me a idia de que, vingando a minha honra ultrajada, vou
igualmente prestar um grande servio  Justia e ao Direito.

Rio de Janeiro. 28 de dezembro de 1884.

Sou de V.S.

At.  cr.  obr. or



* * *



NOVAS REVELAES

SEGUNDA CARTA



Sr. Redator d A Semana.

No sei se lhe agradea o seu procedimento com a minha carta ou se lho
censure; o que afiano  que ele me surpreendeu deveras e, se no me
magoou, tambm no me produziu grandes impresses de gosto.

Esperava que V. S., atendendo ao meu justo pedido, se limitasse a
extrair; de tudo que lhe enviei, uma pequena noticia e, quando vi a
minha carta publicada na sua ntegra e, quando tive ocasio de ver a
sensao que ela produziu sobre o pblico desta Capital, confesso-lhe,
Sr. Redator, tive srios receios de haver cometido uma leviandade.

Porque, cumpre declarar; eu no tenho o hbito de me articular
diretamente com as massas populares, e sempre que me vejo alvo de
atenes gerais, apodera-se de mim um tal constrangimento e uma tal
ansiedade, que chego a ficar doente.

Entretanto, V. S., teve a prudncia de ocultar o meu nome e o de outras
pessoas que citei, e isso j  para mim no pequena animao.

Nem sei qual seria a minha conduta, se V. S., no tomasse to delicada
resoluo. E, j que as coisas seguiram esse caminho, estou disposto a
no retroceder; e declarar pra frente tudo que me constar a respeito do
assunto.

Como lhe disse na minha primeira correspondncia, apenas o que me ficou
da investigao da hospedaria foi um carto de visita onde se lia o nome
de Castro Matta.

Pois bem, Sr. Redator; armado desse documento, sa a tomar informaes
no quarteiro inteiro e vim a saber por um homem do ganho que este
prprio levara para a ponte das Barcas Ferri um ba de folha com as
iniciais J.A.C.M.

Peo-lhe informaes sobre o dono ou dona dessa bagagem, e ele me
respondeu que a pessoa que lha entregara era um homem alto, magro, de
cabelos pretos e barba  inglesa, vestido com certa elegncia, de
polainas e chapu alto, mas que no podia afianar se ele era ou no o
verdadeiro dono da bagagem ou simplesmente um encarregado dela, visto
que o sujeito, a cada passo que dava, dizia com um gesto de impacincia.
- "Que maada! Que maada!"

E o carregador declarou mais que, indo a tomar uma caixa de chapu de
senhora que o sujeito tinha sobre a mala, ele a defendeu com certo
interesse e disse que no se incomodasse com a caixa, que ele mesmo a
levaria e que, ao met-la debaixo do brao, acrescentara:

- No! desta no me separo por coisa alguma!

- E ele no te disse como se chamava? perguntei ao homem do ganho.

- Saiba vossemec que no senhor; mas quando cheguei  estao,
encontrei-o de brao com uma senhora, que lhe dava o tratamento de "Seu
Joozinho".

Estas duas palavras fizeram-me pulsar o corao com maior fora.

- E essa senhora, que estava com ele - interroguei de novo -, essa
senhora que espcie de gente mostrava ser? Qual era o seu tipo? Era
baixa, gorda, ou magra e alta?

- Nem muito baixa, nem muito gorda, assim pelo feitio daquela madama que
ali vem.

E o ganhador apontou com o seu velho chapu de lebre para uma Francesa
que se encaminhava para o nosso lado e que era justamente da estatura de
minha mulher.

- E era morena? - perguntei em crescente sobressalto.

- Nem por isso, mas era... era moreninha e com umas faces rosadas que
faziam gosto. Lembra-me ainda que, numa ocasio em que o sujeito lhe
disse alguma coisa ao ouvido, ela soltou uma risada muito gostosa e eu
vi ento uns dentes mais alvos que esse peito de sua camisa.

Corri instintivamente os olhos pela minha camisa e lembrei-me da
brancura sedutora dos dentes de minha mulher.

- E como estava vestida? - inquiritei de novo.

- Homem! Disso no me lembro!...  

- Diabo! - praguejei.

- Ah! agora me recordo! Estava toda de preto e tinha um chapu de palha
escura que lhe escondia os olhos.

- Os olhos? E de que cor eram eles?

- No lhe posso dizer; patro, porque o chapu no deixava...

'' a mesma, no tem que ver!" - pensei, lembrando-me de um chapu que
dois meses antes eu havia comprado para minha mulher na Notre Dame.

E, metendo uma nota de dez tostes na mo do homem, acrescentei:

- Ora diga-me c! no reparou se a sujeita tinha algum sestro?

- Sestro?  

- Sim! Pergunto se ela no tinha o costume de fazer alguma coisa
particular com as feies ou com alguma parte do corpo.

- Parte do corpo?

- Quer dizer; se ela no tinha algum cacoete.

- Que diabo vem a ser isso?

- Mau! Agora  voc que me interroga! Pergunto-lhe, homem de Deus, se a
sujeita no piscava com os olhos, no mexia com a boca ou no sacudia os
ombros.

- Mexia, patro, sacudia e piscava.

- Tudo a um tempo?!

- A um tempo, como?

- Bem, j vejo que no arranjamos mais nada. Adeus, obrigado.

- Ah!  verdade - disse o homem, voltando a ter comigo -, ela, patro,
todas as vezes que falava, lambia os cantos da boca...  

- Lambia os cantos da boca?! Ah!

J no podia haver dvida! Era ela! Era minha mulher! Era Margarida.

Quando voltei a mim da ltima revelao do carregador; este j no
estava em minha presena, ao passo que a Francesa, que lhe servira de
comparao para me dar idia do tamanho da sujeita, permanecia ao meu
lado e observava-me de um modo estranho.

Eu, porm, no me sentia disposto a prestar-lhe ateno e corri a tomar
o bonde das Barcas Ferri.

Eram cinco e meia, ainda tinha tempo talvez de encontr-los nas ruas de
Niteri. Entrei na estao como um louco, procurando descobrir em todas
as pessoas, em todas as coisas um indcio que me pudesse elucidar
naquela conjuntura.

Nada! nada!

Fui para bordo, assentei-me ao canto de um banco no tombadilho, e
confesso que nunca achei que as Barcas Fervi caminhavam to devagar.
Sentia mpetos de atirar-me ao mar; uma vontade dolorosa de chorar
estrangulava-me a garganta. No podia estar quieto, ergui-me, dei
algumas voltas pelo tombadilho e afinal desci.

Imagine, Sr. Redator; qual no foi a minha surpresa quando, na primeira
fisionomia que meus olhos descobriram, reconheci a mesma Francesa que
servira de comparao ao homem do ganho.

"Ser talvez uma coincidncia..." - pensei, e resolvi no mais cuidar
disso.

Mas a Francesa se havia levantado e, vindo ter comigo, disse em
meia-lngua:

- Se quiser saber o que foi feito deles, acompanhe-me, quando chegarmos.

Quis pedir mais algumas explicaes, mas a Francesa, como se a coisa no
fosse com ela, afastou-se e retomou na barca o lugar que havia
abandonado e a leitura de um livro que tinha interrompido.



Sou de V. S.
 At. cr. e ven. or

* * *



 

NOVAS REVELAES

TERCEIRA CARTA



Mal a barca abicou na ponte da estao de Niteri; saltei de um pulo, s
cuidando seguira misteriosa Francesa que me havia prometido informaes
sobre o casal fugitivo.

Mas, qual no foi a minha decepo, quando, volvendo em torno os olhos
vidos, no encontrei a estrela em que baseara as minhas melhores
esperanas.

Ela havia desaparecido, como por feitio, visto que, apesar das
pesquisas que empreguei, no lhe descobri sequer o rastro.

- "Estaria se divertindo  minha custa?'' - perguntei aos meus botes,
que, naturalmente para me serem agradveis, no quiseram opinar comigo.

- Bem! - deliberei'.' - No pensemos nisto!

E fui cuidar de obter novas informaes. Dirigi-me logo para o buffet
prximo  ponte e perguntei a um criado que servia a um canto da sala um
grupo de rapazes, se ele tinha visto saltar um sujeito de suas,
polainas, chapu branco, de brao dado a uma dama vestida de preto, com
um chapu de palha.  

O criado olhou para mim, coou o queixo e resmungou:

- Homem! Eu lhe digo... Saltar; saltaram, at mais de um par; o negcio
porm  que no reparei se algum deles era esse de que fala o senhor...

- E uma Francesa que chegou justamente nesta barca? - perguntei. - Uma
Francesa de estatura regular, cabelos loiros e vestido de ramagens.
Tambm no saber dar-me noticias dela?...

Mal acabei de proferir estas palavras, um dos rapazes do grupo ergueu-se
de improviso e, estacando defronte de mim, e ferrando-me um olhar muito
atrevido, interrogou-me:

- Que deseja o senhor dessa Francesa?

Confesso que no encontrei logo o que responder a semelhante tipo. Ele,
porm, acrescentou:

- Vamos! Estou s suas ordens! Os negcios dessa senhora tratam-se
comigo.

- O senhor  seu marido?

- No tenho que lhe dar explicaes. Sou da Francesa o que bem entendo
ou quero ser! Apenas no admito que nenhum sujeito, seja l quem for;
tenha com ela qualquer negcio particular!  

- Pois ento, d-lhe lembranas! - repliquei eu, voltando-me vivamente e
muito disposto a dar s de vila-diogo.

O tipo no me deixou tempo para isso e cortou-me o caminho, indo
postar-se  sada do buffet. Os outros rapazes seus companheiros, que
eram em nmero de quatro, haviam-se erguido j e estavam incorporados ao
meu adversrio.  

- O senhor no me sair das unhas enquanto no explicar o que deseja da
mulher que procura! E, voltando-se para um dos companheiros:

-  uma questo a respeito da Jeannite! Sempre ela! Sempre as mesmas
maadas por causa daquela sirigaita!

Os rapazes, que se haviam levantado por ltimo, olharam-me ento de alto
a baixo e depois puseram-se todos a observar os ps, e a chuparem os
competentes charutos, muito srios e muito tranqilos.

A questo ia estoirar definitivamente por parte do meu provocador;
quando este soltou um formidvel "Ah!" e ento vimos todos assomar 
porta do buffet a causadora de todo aquele alvoroo.  

Fez-se um grande silncio, no meio do qual a Jeannite atravessou a sala,
foi ao encontro do meu formidvel agressor e, depois de apontar para
mim, lhe disse com a voz firme e resoluta:

- Este senhor no me conhece ainda, encontrei-o na barca e prometi que
lhe daria informaes a respeito de um casal que fugiu aqui para
Niteri.  

- A parte feminina desse casal  minha mulher! disse eu, corando
levemente.

- J sei - respondeu a Francesa.

- Seria um casal que saltou na barca das cinco? - interrogou o
encarregado dos negcios da Jeannite. - Um casal muito unidinho, cujo
homem trazia debaixo do brao uma caixa de chapu de senhora?

-  esse justamente! - exclamei com um vislumbre.

- Cale-se! - volveu a Francesa em voz baixa ao meu ouvido. - Eu me
encarrego de tudo, descanse!

- Pois esse casal meu caro senhor - continuou o da agresso -, esse
casal seguiu para os lados de So Gonalo.  s o que lhe posso dizer a
respeito.

- Obrigado! - respondi; e fiz meno de sair.

- Olhe! - acrescentou a Francesa - no seja precipitado. Tome o bonde do
Barreto e...

Neste ponto ela abaixou a voz disfarando e concluiu com esta frase:

- As oito horas na Rua do Imperador, n. ***.

- Para qu?

- A encontrar todas as informaes.

O sujeito que se dizia encarregado de seus negcios, j ento
apresentando um ar inteiramente oposto ao que tomara no princpio da
questo, encaminhou-se humildemente para a recm-chegada e, de chapu na
mo, balbuciou com um sorriso de caixeiro:

- Eu no tive a menor inteno de contrariar-te, Lel!

- Cale-se! - exclamou ela com desprezo, e em seguida piscou para o meu
lado o seu olho esquerdo, e saiu do buffet ainda mais senhora de si do
que entrara.  

Sa tambm, mas, para no deixar alguma sombra de suspeita no esprito
dos rapazes, tomei direo contrria  da Francesa e cheguei at a sair
por uma outra porta.

O tal encarregado dos negcios dela falara-me em So Gonalo; tinha eu,
pois, de meter-me no bonde de Sant'Ana.

Quando ia a fazer isso, sou detido por um homem de meia-idade, gordo e
de culos, que me disse, falando-me  orelha:

- No v a So Gonalo, seria perder o seu tempo; se quiser ouvir um bom
conselho, siga os rastros da Francesa que veio com o senhor na barca. S
ela, s a Jeannite lhe poder dirigir os passos com segurana. Em todo o
caso, se V. S.  no quiser dar ouvidos s minhas palavras, acredite ao
menos que no deve tomar o bonde de Sant'Ana e sim o do Barreto, porque
este o aproximar mais facilmente daqueles que procura.  

Dizendo isto, o homem recuou dois passos e, escondendo o rosto numa capa
rio-grandense que trazia, desapareceu nas sombras de uma casa em
construo que nos ficava ao lado.

Fiquei parado no meio da rua, sem saber que partido tomar. Cada
informao das que lograra apanhar; longe de me elucidar o esprito,
mais tenebroso mo havia deixado.

Afinal, entre tudo isso, s a Francesa falara claro e decisivamente.

Puxei do relgio, consultei as horas, eram sete.

- Bem! - deliberei. - As oito estarei na Rua do Imperador n.  ***.

Segui.

No gastei muito tempo a chegar ao ponto da entrevista e, a dois passos
da casa indicada, o mesmo sujeito gordo de h pouco aproximou-se de mim
e, levando o indicador aos lbios, fez-me sinal que o acompanhasse.

Tive vontade de hesitar; mas, chegado como estava quele ponto da
intriga, deixei-me levar.

Da a poucos instantes era eu introduzido numa pequena alcova
cor-de-rosa, iluminada por um nico bico de gs.

Mal entrei, senti correr um reposteiro que havia por detrs de uma cama
e ento vi surgir; como num sonho, a misteriosa Francesa.

Ela caminhou para mim, sorrindo, e, logo que me teve ao alcance de suas
mos, passou-me os braos em volta do pescoo e exclamou entre beijos:

- s meu!

- Perdo! - disse eu. - Perdo! Agora, tenha pacincia, mas no me
perteno a mim mesmo, quanto mais a V. Ex.. No tenho um minuto a
perder! Preciso encontrar o amante de minha mulher!

- O Castro Matta? - perguntou a Francesa, sem me largar das unhas.

- Sim! O Castro Matta!

- Descansa! - volveu ela. - O amante de tua mulher est seguro e muito
bem seguro! Dei j todas as providncias para isso...

- Como assim?

- L.  

E eu li uma portaria da Policia, declarando que o meu homem fora
recolhido ao xadrez na vspera, isto - no dia 16 do ms de novembro.

- Qu? Pois ele est no xadrez?

- Juro-te que est, e no quero ser quem sou, se daqui a trs dias o
detrator de tua honra no estiver recolhido  Casa de Deteno.

- Em todo o caso,  preciso que eu v no seu encalo.

- No! - exclamou a mulher. - No sairs daqui, seno amanh, depois do
meio-dia.  

- Ora esta! - gaguejei, atirando-me sobre um div s me faltava mais
isto!

Sou de V.S.
 At.  cr.  e vem. or .

* * *



 

NOVAS REVELAES

QUARTA CARTA



Sr. Redator.

Recebi a sua estimvel cartinha, na qual declara V. S. os justos
motivos pelos quais no deu publicidade s ltimas comunicaes que lhe
fiz, reservando-as para mais tarde, visto que no seria de bom aviso
exp-las to precipitadamente.

Verdade  que tais revelaes tanto podiam aparecer agora, como mais
tarde, encarando-as pelo lado do interesse que elas tenham porventura
nesta questo.

Entretanto vou prosseguir; tomando o fio das revelaes justamente no
ponto em que as deixamos.

Quando sa da casa de Jeannite, isto , dois dias e meio depois de ter
entrado, j o meu homem, segundo o que dissera aquela, devia estar
recolhido  Casa de Deteno.

A Francesa deu-me uma fotografia dele, um retrato que o tratante havia
trs meses antes tirado em casa do Emlio Rouede, quando esse pintor de
marinhas ainda se dava a trabalhos fotogrficos.

Esse retrato estava em tudo de acordo com as informaes que eu
conseguira apanhar a respeito do Castro Matta.

Senhor de mais esse belo auxlio, dirigi-me para a Casa de Correo,
onde felizmente tenho nada menos do que trs amigos; pedi-lhes notcias
do Matta e um deles me respondeu que o meu homem havia seguido na
vspera para a Santa Casa de Misericrdia.

- Para a Santa Casa? - perguntei surpreso.

- Sim - disse-me o amigo. - Foi tratar-se de uma congesto heptica.

- Mas, como assim? - tornei a perguntar. - Ele parecia vender sade e,
segundo o que acabou de dizer aquele senhor (apontei para um outro dos
amigos), o homem foi preso por ter sido pilhado afazer desordens na
Praa da Constituio.

- Esse ponto agora  que eu no lhe posso esclarecer - volveu o meu
informante. - Apenas lhe digo que o Castro Matta no  l grande coisa
debaixo do ponto de vista da seriedade e da boa conduta.

O meu amigo e informante gostava em extremo de armar a frase com uma
certa pompa de linguagem; sinto at no poder reproduzi-las mais
fielmente, porque algumas delas so bem boas.

Mas no  disso que se trata agora, e no podemos perder tempo com
semelhante coisa.

- Ento o sujeito, o tal Matta,  homem de maus costumes, hein? -
perguntei ao amigo.

- Chi! - fez ele - nem lhe digo nada! Sem ir muito longe, ainda na
vspera da desordem que ele fez na Praa da Constituio, foi visto a
passear em Niteri com uma sujeita da vida airada, uma sujeitinha
vestida de preto e com um grande chapu de palha, que lhe escondia quase
todo o rosto.

Imagine, Sr. Redator; a impresso que estas palavras me causaram, a mim
que reconheci naquele vestido preto e naquele chapu de palha a mulher a
quem para sempre havia ligado meu nome e meu futuro.

Mal sabia eu quando te comprava na Notre Dame, pobre chapu de palha!,
que terias ocasio de entrar to diretamente nas minhas dores e nos meus
sobressaltos de marido atraioado!  

Desconsolado, aflito e naturalmente com uma cara d'asno, ia a deixar a
Deteno para tomar o caminho da Santa Casa da Misericrdia, quando um
dos meus trs amigos chamou-me de parte e disse-me:

- Tu me mereces toda a confiana e vou falar-te com franqueza. O
Malta...

- Malta ou Matta?

- O Malta - sustentou ele -, o Castro Malta.

- Mas no  o Malta que eu procuro,  o Matta.

-  tudo uma a mesma coisa. Digo-te mais: o sujeito no  s Matta e
Malta,  tambm Mattos.

- Hein?

-  o que te digo. O velhaco usa e abusa desses trs apelidos, conforme
a situao e conforme o plano de suas velhacadas.  Malta quando quer
comprar a crdito qualquer coisa;  Mattos quando se mete em desordens e
arruaas e s  Matta nas aventuras amorosas.

- Ento  o mesmo - disse eu. -  justamente por causa de uma questo
amorosa que eu ando em busca do tratante.  

- Aposto que se trata da Jeannite!

- Da Jeannite? Uma Francesa, de cabelos loiros?

- Isso!  a amante dele.

- Dele quem?

- Do Matta, Malta ou Mattos.

- Que me dizes, homem?

- Pois no. Olha, vou mostrar-te uma carta que ainda hoje ela me
escreveu.

E o meu amigo, tirando do bolso uma folha de papel, marca pequena, leu
pouco mais ou menos o seguinte, entre outras coisas, s quais no
prestei a mesma ateno:   

"Aquele miservel pagou-me tudo, vinguei-me dele (o miservel era o
Matta); logo que tive as provas da sua traio, procurei o marido da
mulher com quem ele me traa, obriguei-o a vir a minha casa, prendi- o,
fingi-me apaixonada por ele e vinguei-me durante sessenta horas.''

Eu soltei um suspiro; - que me estaria ainda reservado?!

O amigo, depois de guardar a carta, acrescentou:

- Foi ela, a Jeannite quem arranjou a priso do maroto...

- Pois a Jeannite tem essa influncia na Polcia?

- Ento no sabes do que h, homem de Deus?

Eu confessei que no sabia, e o amigo passou ento a fizer-me a delicada
revelao que na minha ltima carta expus a V.S. e que V.S. resolveu
guardar para mais tarde.

- Mas enfim - disse eu ao meu obsequioso informante -, disseste que ias
me falar com franqueza a respeito do tal Matta e ainda no declaraste o
que  feito dele.

- O que  frito dele? Eis justamente o que te vou dizer em confiana...

E depois de observar se no nos escutavam:

- O Malta no foi para a Misericrdia!

- No foi? Mas ento onde est ele?

- Est aqui, escondido. Temos ordem superior para no consentir que ele
se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a
Misericrdia. Amanh hs de ver isso justamente nas notas policiais.

- De sorte que o homem est aqui? - perguntei ainda.

- Est - disse o amigo. - E estar por muito tempo!

- E a mulher com quem o viram a passear em Niteri? Sabes porventura me
dizer que fim levou?

- Tambm c est e tem de responder a processo por crime de roubo.

- Roubo?! E presa?! Oh!

- Admiras-te de qu?!

- Desgraado! essa mulher  minha...

- Tua, qu?

- ... esposa!

- Oh! Desculpa! Eu no sabia...

- E  permitido ir ter com ela?

- Pois no. Acompanha-me.

E dizendo isto, o meu amigo tomou a direo do lugar onde se achavam os
presos. Acompanhei-o.

Ao chegarmos  clula em que se achava a amante do Malta, senti que o
suor me caia em bagos pela fronte; uma vertigem me escondeu por
instantes a luz dos olhos, quis avanar e as pernas afrouxaram-se-me a
tal ponto que o amigo amparou-me nos seus braos e exclamou:

- Ento, fulano! Que  isso? Nada de fraquezas! S homem, meu amigo!

Eu concentrei todas as minhas foras e respondi:

- Estou s tuas ordens! Vamos!

O amigo empurrou a porta e eu soltei um grito de surpresa e de
indignao

Imagine V. S., quem havia eu de encontrar ali, em vez de minha mulher,
como esperava? Imagine quem, Sr. Redator: - minha sogra!

Sou de V.S. 
 At.  cr.  e ven. or

* * *



 

NOVAS REVELAES

QUINTA CARTA

Sr. Redator.

Antes de mais nada, antes de lhe dar conta dos fatos extraordinrios que
se vo seguir; seja-me permitido dizer duas palavras a respeito de minha
sogra, dessa megera, a quem o acaso, por desgraa, fez me da mulher com
quem casei.

Dona Leonarda dos Prazeres  uma velhusca de quarenta e tantos anos que
no parece ter mais de trinta e poucos. Forte, bem conservada e lpida,
diz at muita gente que ela mete mais vista do que a filha, com quem
alis se parece muito.

Dona Leonarda  viva e foi casada quatro vezes. (Margarida nasceu do
seu primeiro matrimnio.) Teve por maridos os seguintes homens: um
ferrador; um aougueiro, um jornalista e um farmacutico.

Consta que todos eles acabaram meio idiotas, notando-se que dois deram
cabo da vida, um suicidando-se a tiro e o outro a veneno.

Dona Leonarda herdou do ltimo de seus maridos, o farmacutico, uma
casinha de porta e janela, cinco aplices da dvida pblica e a
farmcia. Comeu tudo isso dentro de um ano e passou a viver  minha
custa. Eu que no estava disposto a atur-la em casa, arranjei-lhe uma
penso com os parentes ricos do defunto farmacutico e tratei de nunca
mais saber notcias dela.

Isto foi, haver coisa de quatro anos, e, depois de todo esse tempo, 
que a fui encontrar pela primeira vez ali; na Casa de Correo e presa
como ladra, segundo a informao do meu amigo.

Entrei na clula e, sem mais comentrios, exigi de minha sogra a
explicao de tudo aquilo. Ela fechou os olhos e meneou a cabea
negativamente.

- No quer falar? perguntei eu.

Ela tornou a dizer que no, com a cabea.

-  a sua ltima resposta?

Ela sacudiu a cabea afirmativamente.

- Mas a senhora no sabe o que me trouxe aqui? Ela levantou os ombros,
com indiferena.

- No sabe que se trata de sua filha?

Ela repetiu o movimento dos ombros.

- Saber ao menos dizer-me o que foi feito dela?

A velha esticou o beio inferior com um jeito expressivo, que dizia -
''No sei."

Cada vez mais furioso, pedi ao amigo que me levasse  presena de Castro
Matta.

- No posso - respondeu ele. - Tenho ordem para no o mostrar a ningum.

Ao sair da Casa de Deteno, um dos outros amigos, aquele justamente que
me havia afianado que o Matta estava recolhido a Misericrdia,
segredou-me j na rua:

- Vou agora  Misericrdia, a servio; se quiseres ver o homem, vem
comigo.

Aceitei o convite e, imagine-se qual foi a minha nova surpresa, quando,
penetrando o meu amigo na enfermaria, tornou ao meu lado e disse-me ao
ouvido:

- J no encontras um homem, encontras um cadver.

E, avanando alguns passos, foi ter a uma cama, onde se via um grande
vulto humano coberto por um lenol velho.

O meu amigo levantou a coberta por uma das pontas e acrescentou:

- V!

Eu puxei do bolso a fotografia que me dera a Jeannite e confrontei-a com
o cadver.

No podia haver dvida.

Era o mesmo, sem tirar nem pr.

E a graa  que a fotografia estava perfeitamente de acordo com as
primeiras informaes que no ponto das Barcas me dera o carregador,
"magro, cabelo preto, barba a inglesa", e pela elegncia  de supor que
usas-se polainas e chapu alto.

Detive-me defronte daquele cadver, a fazer algumas consideraes a
respeito dele.

"Ali estava para sempre inanimado o homem que minha mulher preferiu a
mim e por quem trocou a sua tranqilidade, o seu futuro e a sua honra! E
fossem l compreender as mulheres! Por que razo aquele tipo de barbas
inglesas, aquele desordeiro vulgar e de ms entranhas sem dvida, havia
de merecer mais do que eu?... Por qu? Por ser bruto? No! Por ter mais
talento? No creio... Ele no seria capaz de escrever estas cartas...
Por ser mais honesto? Impossvel! Por que seria ento? Ainda se fosse
rico, mas qual, segundo informaes que me deram mais tarde, s lhe
encontraram nas algibeiras dois nqueis de tosto, uma caixa de
fsforos, algumas cartas de namoro, algumas contas, um pente e trs
cigarros. Por que pois teria minha mulher o preferido a mim?

"Ah! Quem poder explicar esses mistrios e essas aberraes do corao
feminino! Quantas vezes essas insensatas no largam de mo o ouro
verdadeiro para se lanarem sobre o mais ordinrio dos metais!..."

Fazia eu tais consideraes, quando o meu bom amigo tocou-me no ombro.

- Ento! - disse ele - queres agora ficar a, defronte desse corpo?

- A que horas  o enterro? perguntei.

- Deve ser daqui a uma hora. s quatro.

- Pois eu espero. Quero acompanh-lo at ao cemitrio, quero v-lo
descer  sepultura, cair-lhe sobre o peito a terra e a cal, e s depois
disso respirarei com franqueza.

- Ento, adeus - disse-me o amigo. - Deixo-te, que ainda tenho que
fazer.

- Adeus. Obrigado.

O amigo saiu e eu fiquei ao lado do defunto. Estava disposto a no
abandon-lo um s instante.

"Depois do enterro ou talvez amanh" - resolvi comigo - "tratarei de
continuar nas minhas pesquisas. Minha sogra no quer filar, mas eu hei
de descobrir onde se esconde a filha!... Em ltimo caso vou ter com a
Jeannite e peo-lhe novas informaes."

Mas, apesar de ter ali, defronte dos olhos, aquele cadver; que era a
confirmao silenciosa da fotografia e das afirmaes do sujeito que o
vira com minha mulher, as palavras do meu outro amigo no me deixaram a
cabea!

"Est aqui na Casa de Correo escondido; temos ordem superior para no
consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que
ele foi para a Misericrdia. Amanh hs de ver isso mesmo nas notas
policiais...

E como se poderia explicar o engano to grosseiro em que se achara o meu
outro amigo? Como explicar igualmente a priso de minha sogra? Onde
estaria a minha mulher?

Eram essas as interrogaes que se erguiam dentro de meu crebro, quando
vi chegar um homem, acompanhado por dois serventes, o qual apontou para
o cadver, e disse:

- Carroa com ele!

- Perdo - intervim eu, chegando-me para o sujeito. - Saber dizer-me,
caro senhor, de quem  este cadver?

- Do Malta.

- Tem certeza que  Malta?

- Malta ou Mattos... - respondeu o sujeito. - Tambm no sei com
certeza. Se no me engano  Castro. Castro Malta ou Castro Matta. Pelo
nome no se perca!

"No se perca! Mal sabia o desgraado o que havia de suceder":
considerei comigo e, tornando ao sujeito, perguntei-lhe se no sabia que
espcie de homem fora esse Malta ou Mattos.

- Uma espcie de vagabundo!

- Mas no tinha profisso?

- Qual! Vivia da jogatina.

"Ora essa!'' - considerei eu. - "O Castro Matta de que me falaram os
vizinhos, quando eu sa a procurar minha mulher, era encadernador; e
constou-me que empregado em uma das melhores livrarias da Corte."

Cada vez mais intrigado, fiz ainda algumas perguntas ao sujeito e, vendo
que no obtinha melhores esclarecimentos, despedi-me dele e dispus-me a
acompanhar o enterro.

Eram cinco horas da tarde quando saiu o corpo da Santa Casa da
Misericrdia, dentro de um carro negro, onde se via uma cruz pintada de
branco. Tomei um tlburi e acompanhei o sem dar a entender que o fazia.


A carroa tomou a direo do Cemitrio de So Francisco Xavier; eu
atrs.

Ia triste, como se acompanhasse o enterro de um parente ou de um amigo,
sentia at vontade de chorar; quando o meu tlburi deslizou surdamente
pela areia do Campo.  

E a carrocinha negra, miservel, l ia na frente puxada por um burro. De
vez em quando, nas curvas do caminho, eu a perdia de vista, mas da
apouco divisava de novo o chapu alto do gato pingado e, ento, fechava
os olhos para o no ver.

Que estranho mal-estar se apoderava de mim  proporo que me aproximava
do cemitrio! Afigurava-se-me um crime o que eu fazia naquele momento.
Ia perseguindo um cadver; rondando-o como se receasse v-lo fugir no
meio da viagem.

Puxei do bolso a fotografia e quase me faltou a coragem para encar-la.
O retrato sorria, parecia sorrir de mim. Por instantes, afigurou-se-me
que os traos de sua fisionomia se acentuaram para sorrir com mais
vontade; depois parecia que se fecharam na triste expresso que eu vira
na cara do defunto.

Tornei a guardar a fotografia, e s ento reparei que o tlburi j
estava parado h alguns minutos, defronte do porto do cemitrio.  

Entrei sempre atrs da carroa e fiquei meio contrariado, quando o
guarda declarou que j no eram horas de enterrar.

O corpo foi depositado na capela. Era tal a insistncia com que eu o
acompanhava que passei por parente do morto. O meu cocheiro chegou mesmo
a lanar-me um olhar de consolao.

Ia a sair, mas hesitei. Despedi o tlburi e pus-me a passear em volta da
capela, onde podia por entre as grades ver o cadver deitado ao comprido
sobre uma mesa de pedra.  

No sei por que eu me demorava ali, mas sei que me sentia atrado
misteriosamente para aquele corpo.

No podia lhe tirar a vista de cima. Olhei em torno de mim, estava s, o
guarda se havia afastado, quando um grito me escapou dos lbios.

Pareceu-me ter visto o cadver virar a cabea de um para outro lado.

"Estou sonhando!..." disse comigo, mas resolvi observar; ainda que fosse
preciso esconder-me no cemitrio.

Pela seguinte carta ver V. S. que no era um sonho.

Sou de V. S.
 At.  cr.  e ven. or

* * *



NOVAS REVELAES

SEXTA CARTA



Sr. Redator.

Como lhe disse  semana passada, no era um sonho o que eu via na capela
do Cemitrio de So Francisco Xavier.

O corpo havia mexido com a cabea e repetira pouco depois o movimento
como quem se debate na agonia de um pesadelo.

Quis gritar e chamar por algum, mas no pude, faltou-me a voz, e fiquei
chumbado  grade da capela, sem conseguir fazer um movimento.

Entretanto, a noite avultava rapidamente e quase que se no podia
distinguir nada para dentro das grades. A lua, que no costuma faltar s
cenas desta ordem, j l estava no cu num transbordamento de luzes
prateadas, que melhor faziam destacar as casuarinas e as pedras brancas
dos mausolus.

Um rumor surdo, gemebundo, levantava-se tristemente do cho e de tal
forma se casava s sombras da noite, que parecia sair de dentro delas,
dir-se-ia que a treva sussurrava derramando-se pelo vale, como uma
enorme legio de espectros.

Com o luar no h claro-escuro; e essa diviso rpida da luz e da treva
sempre me produziu no esprito os mais imprevistos e pavorosos efeitos.

No sei por qu, mas eu, que sou um homem de verdadeira coragem, quando
estou ao sol, tremo e fujo de tudo debaixo da mefistoflica influncia
da lua.

E, de mais a mais, num cemitrio. - Calcule-se.

Aos meus olhos as campas se transformavam todas em grandes fantasmas
sados das sepulturas, os ciprestes eram frenticos gigantes que
conspiravam, debruando-se uns sobre os outros, para se falarem em
segredo, e logo depois se apartarem horrorizados com o que ouviam.

Imagine-se!

Ah! Nem sei como ainda me podia ter nas pernas! O suor escorria-me por
dentro do colarinho; o sangue espolinhava-se-me no corao, a cabea
andava-me  roda, a arder.

E, coisa esquisita, quanto mais me ardia a cabea, tanto mais frios
sentia eu os ps e as mos.

Um frio incmodo, que parecia penetrar na carne em forma de agulhas em
brasa.

E esse frio foi se estendendo pelas pernas e pelos braos, at se
apoderar da minha regio intestinal Ento, como se me apertassem o
ventre com um cinturo de ao, comecei a sentir clicas e vontade de
vomitar; faltava-me o ar nos pulmes e o peito parecia querer abrir-se
para fora em duas folhas, como uma janela.

Entretanto, o corpo de Castro Matta acabava de erguer-se a meio sobre a
mesa de mrmore e circunvagava em torno de si os olhos espavoridos e
cheios de inconscincia.

Com um supremo esforo fiz um movimento para fugir; ele deu por mim,
levantou o brao descarnado e comeou a chamar-me silenciosamente.

Depois ergueu-se de todo, lanou fora da mesa as pernas e saltou no
cho, arrastando a mortalha que lhe haviam prendido ao pescoo.

E com o solene caminhar das figuras fantsticas de Goya, aproximou-se
das grades em que eu estava.

O sangue agitou-se dentro de mim com mais fora, o cinturo de ao
parecia disposto a cortar-me de meio a meio pelo ventre, e os braos e
as pernas principiavam-me a tremer convulsivamente.

Mais dois passos e estaria cara a cara com o maldito ressuscitado,
nisto, porm, senti baterem-me de leve no ombro. Volto-me - defronte de
meus olhos estava um vulto de homem.

Era alto, magro, de cabelos pretos e barba  inglesa.

- Eu sou Castro Malta! - disse-me ele, batendo no peito com energia.

Mas, nesse instante a porta da capela abriu-se e o outro apareceu
terrivelmente embrulhado na sua mortalha.

- Ah! - disse o segundo Castro, recuando de braos abertos, e logo em
seguida caiu para trs, sem sentidos.

No entanto, o da mortalha se aproximou de mim e pediu-me que no me
assustasse, como o outro, e fizesse o obsquio de dizer se eu era o
guarda do cemitrio.

- No senhor - respondi - sou um simples parente de um morto que se
enterrou hoje.

- Ah! - exclamou o ressuscitado. -  parente de um colega meu, logo
posso contar com o senhor!

E o ladro dizendo isto nem parecia que tinha morrido na vspera e que
por um triz estivera para ser metido dentro da terra.

"Muito forte deve ser o esprito deste sujeito'' pensei eu, a v-lo
sorrir defronte de mim, como se nada lhe houvesse acontecido de
extraordinrio.

No me pude conter e perguntei-lhe se havia ficado impressionado com o
que lhe sucedera.

- No - disse-me ele muito naturalmente. - E at estimei a minha suposta
morte. Daqui a pouco lhe direi a razo por qu. Se o senhor est
resolvido a dar-me hospitalidade por esta noite, eu lhe contarei a minha
histria e ver o amigo que, nem s no devo estar triste em ter
ressuscitado, como tambm no deveria ficar se tivesse morrido deveras.

- Bem - respondi - Lev-lo-ei comigo para casa, tenho interesse
igualmente em conversar com o senhor.

Interrompemos, porm, a conversa. para cuidar do sujeito que perdera os
sentidos. O da mortalha abaixou-se, apalpou-lhe a testa e os pulsos. e
exclamou depois.'

- Ora esta!

- Que ? - interroguei.

- Pois voc acredita? Este homem no se lembrou de morrer?...

- Morreu?

- Ora! Creio que at j fede! Este j no gustar mais farinha!

E voltando-se de todo para mim:

- Isto  o que se chama fortuna! A minha sada do cemitrio, depois de
estar inscrito nos livros dos mortos, iria talvez produzir grandes
revolues no outro mundo! Assim deixo algum no meu lugar!

- Vai deixar esse homem no seu lugar?

- Certamente. e eu seria um asno se no aproveitasse a boa vontade com
que o pobre rapaz morreu! Vou trocar o meu lugar com o dele. Eu era
defunto e tinha uma mortalha, ele um vivo e tinha roupa, relgio e
talvez dinheiro. Trocamos. Ele fica sobre a minha mesa de pedra e eu vou
para a mesa do restaurant que o esperava. J v que no sou to caipora,
principalmente se atendermos para o fato de que o meu protetor tem a
minha estatura e que o seu chapu me serve.  

Dizendo isto, o ressuscitado colocara na cabea o chapu do outro, que
apanhara do cho e. agora, de cartola e amortalhado como estava, tinha
alguma coisa de cmico e de horrvel.

A graa  que eu. desde que me pus a confront-los, achava-os igualmente
parecidos com a fotografia que me dera a Jeannise.

- Bem! tratemos de trocar as fatiotas - acrescentou o ressuscitado,
despindo o outro.

E, da a uma hora, o novo Castro Malta, competentemente amortalhado,
ficava estendido sobre a mesa da capela; ao passo que o outro saa do
cemitrio pelo meu brao e dizia-me em ar de graa. consultando as
algibeiras:

- Relgio, corrente de ouro, cinqenta e tantos mil-ris em dinheiro e
livre, livre como as asas. Mas de tudo isso o que eu herdei de melhor
daquele santo morto, foi este objeto!

E mostrou-me um carto que tirara da carteira.

-- Um carto de visita?

- Sim. De hoje em diante j no existo para os meus credores e para os
meus inimigos. Morri! Este que aqui vai pelo seu brao, chama-se...

E lendo o carto:

- Joo Alves Castro Malta.

E acrescentou, fazendo parar um carro que passava:

- Durante a viagem lhe contarei tudo.

Sou de V.S.
 At.  cr.  e ven. or

* * *



 

NOVAS REVELAES

STIMA CARTA

Sr. Redator:

Vou tentar reproduzir aqui, com a maior fidelidade que me for possvel,
o significativo dilogo que se travou entre mim e o extraordinrio
ressuscitado, depois que deixamos o cemitrio e nos metemos dentro do
carro.

- Em primeiro lugar - disse-me ele - vou contar-lhe com toda a franqueza
a minha histria, sem o que no poderia o senhor capacitar-se de que no
sou precisamente um doido: Nasci na cidade de Campinas, e, segundo me
consta, meu pai, a quem no tive o gosto de conhecer; era um sujeito
honrado e de bons costumes, o que alis no lhe impediu de sucumbir a
uma indigesto de lagostas, justamente quando minha me estava em
vsperas de dar-me ao mundo. A morte de meu pobre pai precipitou um
pouco este vulgarssimo fenmeno fisiolgico, obrigando minha desgraada
me a pagar com a prpria existncia o meu direito de fazer parte dessa
coisa que se chama humanidade e a um lugar neste mesquinho inferno que
se chama o mundo. Por conseguinte, apenas com um dia de vida j recebia
eu os primeiros coices da fortuna, achando-me completamente desamparado
e sem ter ao menos uma teta que me garantisse a subsistncia. Foi ento
que um pobre cocheiro se compadeceu de mim e carregou-me para casa. O
cocheiro era casado e sua mulher entregava-se ao modesto e honrado
mister de criar bodes e cabras. Foi uma cabra a nica ama-de-leite que
eu conheci, e tal amor tomei desde ento a esse benfazejo animal, que
ainda hoje, quando por acaso o encontro na rua ou em qualquer parte, a
vontade que tenho  de ferrar-lhe um abrao.

- Nada mais justo... - considerei eu.

- Mas - continuou o narrador - a desdita no quis que o meu protetor
levasse ao cabo a obra de caridade que me estava reservada e f-lo
sucumbir; pouco depois da mulher e quando eu ainda no tinha mais do que
cinco anos de idade.

"Passei ento para as mos de um tipo, o melhor dos que tenho conhecido
no mundo, e que foi ao mesmo tempo o meu salvador e a minha perdio."

- A sua perdio?

"- Sim. Eu me explico.' Pedro Melindroso, o homem que substituiu ao meu
lado o cocheiro, era um filsofo, cujas teorias abstratas e metafsicas
entraram muito profundamente pelo vasto terreno da loucura.

''Foi justamente por isso que ele me recolheu. Um dia viu-me chorando
abraado  cabra que me amamentara e escondeu-se para me espreitar.

"Eu, que me supunha a ss com a minha doce companheira de infncia,
exclamava deveras comovido  orelha do bicho: Beb! Beb! (era este o
tratamento que eu lhe dava) minha querida Beb, no imaginas quanto te
quero bem e quanto gosto mais de ti do que de todo o mundo!

"O filsofo, saindo do seu esconderijo, veio ter comigo e perguntou-me
se era verdade o que ouvira de minha boca.

"Eu, meio perturbado com a presena dele, respondi que sim e que no
trocaria a minha querida Beb por ningum.

"- Quem  seu pai? perguntou-me ele depois.

"- No cheguei a conhec-lo - respondi.

"- E sua me?

"- Morreu quando me ps no mundo.

"- E com quem voc vive agora?

"- Com ningum.

"- Voc no tem casa?

"- No.

"- Onde dorme?

"- Quase sempre no curral do Z Coxo.

"- Onde come?

"- Onde encontro o que comer. E quando no encontro, peo.

"- E quando no lhe do?

"- Roubo.

"- E no se vexa de roubar?

"- No, porque no fao por maldade semelhante coisa, mas sim por no
haver outro remdio.

"- E por que voc no se mata?

"- Porque no quero.

''- E que espera voc da vida?

"- Nada, no sei.

"- Quer vir comigo. para minha casa?

"- Vou, se me deixar levar Beb.

"- Pois ento acompanhe-me com ela.

"Desde esse dia principiei a ter de novo uma cama, um talher certo 
mesa do filsofo e roupa lavada e engomada.

"- Voc quer ser uma besta ou um homem instrudo? - perguntou-me o
Melindroso, meses depois de me haver tomado  sua conta. - Mas, desde j
o previno de uma coisa acrescentou ele. Eu no admito meio-termo em
questes de ilustrao. Voc no caso que no queira ser uma besta, h de
ser um sbio. Escolha.

"- Quero ser um sbio.

"- Mas, veja bem, rapaz. Para ser um sbio  necessrio que voc tenha
talento, pacincia e coragem. Consulte o seu esprito e veja se pode
contar com essas trs qualidades.

"- Posso, sim senhor.

"- Tu tens talento? - volveu o filsofo, passando a tratar-me por tu, o
que nele significava bom humor.

"- Tenho.

"- Pois ento responde ao que te vou perguntar.

"- Pronto.

"- Que farias tu a um co que te mordesse?

"- Dava-lhe com uma pedra.

"- E a um que te lambesse os ps?

"- Nada.

"- Bem. Vejam os agora se tens coragem. D-me um soco.

"Eu no esperei segunda ordem e ferrei-lhe um murro na barriga

"- Bom - disse o filsofo. Estou satisfeito e, quanto s provas de
pacincia reservo-as para mais tarde. Amanh principiars a estudar
comigo. E daqui a alguns anos sabers tudo que  dado alcanar ao
conhecimento humano.

"No dia seguinte o meu protetor comeou a ensinar-me simultaneamente as
seguintes matrias: Gramtica Portuguesa, Francesa, Latina e Grega;
Aritmtica, Geografia Fsica e Astronmica, Msica, Desenho e Ginstica.

" intil dizer que de tudo isso s me ficara na cabea uma confuso
diablica, o que alis no desanimara o meu singularssimo professor;
nem o fazia retirar de mim a progressiva confiana que eu lhe inspirava.

"E todos os dias apresentava-me um novo livro e dizia-me:

"- L isto!  bastante que leias; no procures compreender; procura
decorar. A cabea  como a terra, no tem necessidade de conhecer a
semente que recebe no seio; a natureza se encarregar de cumprir com os
seus deveres. A tua inteligncia  a natureza e os livros que te dou so
a semente. Decora-os e mais tarde a planta brotar, sem que tu prprio
descubras a razo porque.

"Eu obedecia. Dos meus seis anos at aos vinte e um, li nada menos do
que dez mil volumes de diversos assuntos.

"Meu professor nada me ensinava a fundo. nem consentia que eu me
inclinasse para nenhuma especialidade.

"- No - dizia-me ele -, um verdadeiro sbio no deve ter especialidade.
Tu deves saber um pouco de tudo e quase nada de todas as coisas. 
preciso que entendas tanto de Teologia como de Botnica, como de
Arquitetura, como da Arte Culinria, como de Economia Poltica, como de
Literatura e do resto. Quero que a tua inteligncia se derrame em torno
de ti; pelo universo e no que ela se encanalize pelo tubo de uma
especialidade.

"Prefiro a extenso  profundeza, prefiro o estudo da humanidade ao
estudo do homem; prefiro o estudo do homem ao estudo de um rgo ou de
um osso; prefiro o estudo de um osso ao estudo particular de uma
molcula, e prefiro o estudo de uma molcula ao de um tomo ou 
especialidade de no estudar coisa nenhuma.

"- Vs? - prosseguiu ele -  a isto que nos conduz a especialidade - a
zero. A especialidade  o meio de ir apertando as coisas at reduzi-las
a nada. Ser especialista e no ser coisa alguma vem a dar na mesma,
porque nada adianta conhecer um elo de uma cadeia, quando a gente no
conhece a cadeia inteira. Nada adianta conhecer a folha de uma rvore,
quando no se conhece a rvore. Depois que saibas tudo sinteticamente,
dar-te-ei licena para os teus estudos concretos; antes no, no admito
que te demores defronte de nenhuma cincia particular.

"Este sistema educativo do meu singular protetor; que nesse tempo eu
supunha um sbio e que depois verifiquei no passar de um louco, esse
sistema fez com que eu aos vinte e dois anos, quando me achei de novo
abandonado no mundo, no encontrasse meios de ganhara vida.

''Entendia de tudo e nada sabia ao certo. Tentei todas as profisses.
experimentei-me em todas as carreiras- nada. Sabia Medicina e no podia
curar; sabia Direito e no podia advogar; Engenharia e no era
engenheiro; Pintura e no era pintor; Arquitetura e no era construtor;
enfim entendia de tudo e no era nada.

"Ento fiz-me bomio e filsofo; principiei a aceitar a vida como esta
se apresentasse. sem me preocupar com o dia seguinte."

- Foi nessas condies acrescentou ele - que conheci uma velhusca, viva
de um farmacutico, chamada Leonarda.

- Aquela que estava presa? - perguntei.

- Justamente.

"Minha sogra" - disse eu comigo; e dispus-me a continuar a ouvir o
ressuscitado. cujas revelaes foram-se-me tornando cada vez mais
interessantes, como ver V. S. pela outra carta que lhe hei de mandar
para a futura Semana.



Sou de V.S.
 At.  cr. e ven. or



* * *



 

NOVAS REVELAES

OITAVA CARTA



Sr. Redator:

Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que
entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a
ouvir com toda a ateno o fio de sua narrativa, quando ele me observou
que estava a cair de fome e precisava refazer as foras com duas ou trs
costeletas antes de principiar de novo o dilogo.

"Isso agora  que  o diabo!" - disse eu comigo, lembrando-me de que,
depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o
fogo.

O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que
fssemos cear a um restaurante.

- No - respondi eu -,  melhor ficarmos aqui. Temos de conversar
longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego
de arranjar o que comer;  um instante! Fique o amigo  minha espera;
no me demorarei muito.

E, antes que ele apresentasse alguma objeo, sai gritando-lhe:

- At logo.

- Veja se no se demora, hem? Tenho o estmago a gemer.

Sai de casa, meti-me no carro que havamos deixado  porta, e fui
comprar; ao primeiro hotel que encontrei; o necessrio para uma ceia.

- Trouxe vinho? - perguntou-me o hspede, logo que me viu voltar.

- Trouxe.

- Quantas garrafas?

- Duas.

-  pouco.

- Pouco?

- Decerto. Uma garrafa de vinho no chega para nada!...

- Mas eu trouxe duas...

- Uma no se conta!

- No compreendo!

- So teorias do meu educador. E desculpe no entrar por enquanto em
maiores explicaes, porque l no me posso ter de fraqueza.

Dizendo isto, o meu singular hspede havia j desembrulhado a cesta dos
comestveis, e tirava de dentro o contedo, exclamando a cada pea:

- Bravo! Um frango assado! - Um pedao de roast-beef, esplndido! -
Ostras de forno, magnifico! - Queijo de Minas, soberbo! - Pastis de
camaro, divino! - Uma lingia, timo!  

- Creio que chega - disse eu.

- Pelo menos remedeia - afianou o ressuscitado, atirando para longe o
chapu e cravando os dentes no frango. - O amigo algum dia j passou
meia semana sem comer? - perguntou-me ele.

- No me lembro.

- Pois aqui est quem j atravessou uma semana inteira, sem meter para a
boca um gro de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta herica Cidade
de So Sebastio. Aqui onde me v, conheo todas as delicias da misria!

- Ningum o diria, atendendo para esse bom humor de que dispe o amigo.

- Ah! Mas  que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosfico.
No me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m'importa
a mim que as coisas corram deste ou daquele modo? Que m 'importa que
chova ou que faa frio? Acaso de desejo conservar a existncia?

- O senhor  um homem singular!...

- No, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos,
sei que tudo isto que nos cerca desaparecer dentro de certo tempo, sei
que ns todos vivemos para cumprir uma lei indefectvel da natureza, e
deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. No
tenho vontades, no tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam
eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou
qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este
sistema? - A morte? - Puff!' estou me ninando para ela! - O descrdito?
Mas que diabo vem a ser isso? No aspiro posio alguma na sociedade,
no pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram
os mistrios da criao; no me mato, porque seria uma maada, e deixo
correrem as coisas como elas bem entendam!

- Mas a sua filosofia no o impedir de sofrer fsica e moralmente,
quando for acometido por alguma dor...

- Dor?

- Ento, tambm nega a dor?

- Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.

- Ora essa! Ento se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor no d por
isso?

- Pode ser que sinta a presso do seu p sobre o dedo em que se acha o
calo, mas juro-lhe que no experimentarei com isso impresso mais
agradvel ou desagradvel do que se me dessem um beijo.

- Ento por que exigiu o senhor que eu fosse buscar isso com que est se
regalando? Se a fome no o incomodava, para que satisfaz-la?

- Porque ela assim o quer; isso no  comigo,  com o meu estmago, que
funciona por conta prpria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que
eu fao  auxili-lo, emprestando-lhe outros membros e outros rgos.
Por exemplo.

E tomou um pastel de sobre a mesa:

- O estmago deseja este pastel, para qu - no sei, nem quero saber,
mas precisa dele e reclama-o. Eu, que fao? Agarro no pastel, levo-o 
boca...

E, mastigando:

- Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!

- E se o senhor no tivesse o pastel  mo?

- Teria outra coisa. Se no fosse hoje, amanh ou depois ou daqui a oito
dias. Com a diferena, porm, que daqui a oito dias, se no me
aparecesse um pastel, ou coisa semelhante, lanar-me-ia s orelhas do
primeiro cidado que me passasse ao alcance dos dentes.

- Bem - observei, j farto de ouvir as extravagantes teorias do meu
ressuscitado. - Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que
nos interessa.

- A mim nada interessa - atalhou ele.

- Perdo, mas no se trata s do senhor.

- Sim, mas eu s trato de mim...

- Pois faa o favor de abrir uma exceo nos seus costumes e responda s
perguntas que lhe vou fazer.

- Ah! Isso no me incomoda e at me diverte. Quer conversar; no 
verdade? Pois converse pr'a; gosto muito de falar; porque falar  uma
coisa excelente, no demanda nenhum esforo, no demanda dinheiro, nem
pacincia, nem energia, nem instruo. A gente abre a boca e deixa que a
palavra saia, assim como agora. V? Eu no lao o menor esforo para
dizer tudo isto... Tenho o estmago cheio, a cabea um pouco atordoada
pelo que j falta de vinho nessas garrafas; ningum conta com a minha
vida ou com a minha morte; posso, por conseguinte, levar aqui a falar
deste modo, enquanto houver o que arder nos castiais e enquanto o sono
usar dos seus direitos de no fizer-me adormecer.

- Bem - disse eu -, mas o que eu desejo no  ouvi-lo falar e sim ouvir
certos esclarecimentos que me so necessrios. Diga-me, por exemplo,
como chegou o senhor a travar as suas relaes com a viva do
farmacutico.

- Pois no! Uma noite, no sei que horas eram nem que dia da semana,
achei'- me cansado e morto de fome. Tinha caminhado por muitas ruas e
no encontrava uma casa aberta. Afinal, dobrando para um largo, vi luz
numa casinha de duas janelas. Fui at l, bati. Perguntaram-me o que
queria. - "Quero falar ao dono ou dona da casa." Apareceu uma velhusca.
"Quem ? - Sou eu! Faa o favor de abrir! - Que deseja? - Comer!" Iam-me
fechar a porta na cara, mas no dei tempo para isso, e penetrei na casa.
- "No se assuste!'' - disse  velha, que parecia tremer de medo. - "No
se assuste, no lhe farei o menor mal." E, vendo que a mesa estava
servida com um resto de ceia, assentei-me e comecei a comer com o mesmo
apetite com que devorei o frango de ainda h pouco. Depois tomei uma
garrafa e enxuguei-a. Feito o que, abri uma porta, que dava para uma
alcova, e estendi-me sobre uma boa cama que encontrei.

- E a velhusca?

- A velhusca a princpio quis ir chamar a Policia, mas,  vista do meu
sangue-frio e talvez do ar pacifico de minha fisionomia, contentou-se em
acompanhar-me os movimentos e afinal at j me achava graa. Dormi l
essa noite, dormi perfeitamente e, como, no dia seguinte, a velhusca me
deu almoo, deixei-me ficar at que as pernas me pediram exerccio. Fui
ento passear; mas logo que me senti cansado, voltei  casa da velhusca,
e assim fui fazendo at que ela j no podia estar por muito tempo
separada de mim, e j pagava as coisas de que eu ia precisando e j me
dava dinheiro, charutos, garrafas de cerveja e balas.

- Depois?

- Depois comeou a aconselhar-me que trabalhasse...

- E o senhor?

- Eu contei-lhe a minha histria, filei-lhe no Melindroso e disse que
no tinha elementos para ganhar a vida e que estava disposto a ir
passando  merc do acaso, at que um bonde ou uma febre de mau carter
se lembrasse de levar-me ao cemitrio.

- Mas o fato da sua priso?

- Ah! Vou contar-lhe tudo pelo mido.



Sou de V.S.
 At.  cr. e ven. or

* * *



 

NOVAS REVELAES

NONA CARTA



Sr. Redator:

O singular homem, que eu tinha defronte dos olhos, narrou-me do seguinte
modo o fato da sua priso em companhia de minha sogra.

- Um ano depois que eu me relacionara com essa velhusca sublime, cuja
forma o protetor acaso, ou Providncia, escolhera para vir ao meu
socorro, achei me com ela, a Providncia, passeando no pequeno jardim
que existe defronte da Estao de Pedro II, quando um carregador me
perguntou que fazamos ali.

"- Creio que vou tomar um clix de vermouth - respondi eu. Porqu?

 - Nada - resmungou o carregador.  c uma coisa!  

"E afastou-se.

"Poucos minutos depois, saboreava o meu vermouth ao lado da velha
Providncia, quando um urbano se aproximou de ns e perguntou como eu me
chamava.  

"- Joo Alberto Castro Matta - disse eu.

"- E esta senhora? - interrogou o urbano.

"- Dona Leonarda da Conceio Meloso.

"- Pois queiram acompanhar-nos.

"- Para qu?

"- Saber na Estao.

"A velhusca ao receber esta ordem perdeu os sentidos e eu, que no me
alterei; pus-me a rir nas barbas do urbano.

"- Voc est se rindo de mim? perguntou-me este.

"- Assim o creio - afirmei, soltando uma gargalhada.

"O urbano puxou pelo refle e ia dardej-lo sobre a minha cabea, quando
de um salto lhe tomei a arma das mos, arrojei-a para longe e investindo
de cabeadas contra o agressor, fi-lo cair dentro de um tanque do
jardim.

"Em seguida, despejei o meu clice de vermouth sobre a testa de Dona
Leonarda, chamei um carro, meti-me com ela dentro e mandei tocar para
casa.  

"Mas o conflito com o urbano havia atrado muita gente e em breve era o
meu carro escoltado por uma poro de soldados. De sorte que, ao
chegarmos, eu e a minha velhusca,  Rua da Misericrdia, um morcego
abriu-me violentamente a portinhola da sege e intimou-me a que me
rendesse no mesmo instante  priso.

"-Bem - respondi -, irei. Tanto se me d ser preso, como no ser. Mas,
peo-lhes que me deixem ao menos acompanhar primeiro esta senhora a sua
casa.

"- Nada! - bradou um sujeito, com ares de autoridade, o qual acabava de
surgir defronte de mim: - Nada! Sua cmplice ir tambm. Sigam!

"E, gritando para um praa: - No os larguem e levem-nos quanto antes 
Estao.

"Fomos os dois conduzidos  presena de uma nova autoridade, e, ato
contnuo, mandaram-nos para a Casa de Correo, onde nos engaiolaram em
clulas separadas.

"Eis a, como fui preso. Depois sobreveio-me uma espcie de
desfilecimento nervoso, do qual s tornei a mim na capela do Cemitrio,
naquela triste situao que j o amigo conhece perfeitamente."

Sr. Redator;  vista desta declarao do ressuscitado, conclu que a
Jeannite, dando as providncias para que o amante e mais a sua miservel
cmplice fossem apanhados pela Policia, tinha motivado esse ridculo
engano.

Calculei que, em vez da filha, tivessem prendido a me e, em vez do
amante de minha mulher; tivessem prendido o amante de minha sogra.

E assim foi. Notando-se, porm, que a terrvel Jeannite tanta gente ps
na pista dos perseguidos e tantas providncias deu para os apanhar; que,
na ocasio em que um Castro Malta era recolhido  Casa de Deteno com
uma mulher; outro j l estava com outra.

Os empregados da Casa, segundo deduzo do que lhes ouvi no dia do
singular enterro, no se achavam muito a par da verdade e, tanto assim,
que uns me diziam que o Castro Matta ou Malta havia seguido moribundo
para a Santa Casa da Misericrdia, e outros afirmavam que o legtimo
Castro Malta estava engaiolado na Deteno.

Perplexo com as novas revelaes do ressuscitado, deliberei esclarecer
por uma vez os acontecimentos e, no dia seguinte  minha conversa com
ele, atirei-me de novo para a Casa de Correo.

- Ento? - perguntei ao empregado que j me havia fornecido as primeiras
informaes - que notcias me do senhor do Castro Malta?

- O Castro Malta - respondeu-me o empregado - enterrou-se hoje pela
manh no Cemitrio de So Francisco Xavier. A priso desse vagabundo, a
quem Deus haja, motivou tambm a injusta priso de um inocente que,
ontem mesmo, mal se verificou o engano, foi posto em liberdade com uma
rapariga que o acompanhava; ficando uma velhusca que viera com o que
faleceu.

- Bonito! - disse eu. - Os senhores podem limpar as mos  parede!

- Porqu?

- Porque fizeram asneira! Porque soltaram o legtimo Castro Malta e a
legtima cmplice do Castro, e ficaram a com uma pobre desmiolada, que
nada tem com o negcio!

- Como?! Explique-se!

- Ora! Fizeram-na bonita! A mulher que os senhores soltaram  minha
esposa,  a legtima amante do legtimo Castro Malta; a outra, coitada!
 minha sogra, uma doida, cujo crime nico foi meter-se com um bomio
que a estas horas deve ainda estar deitado em minha cama, a digerir uma
ceia que lhe dei ontem.

- Perdo! volveu o empregado policial. - Perdo! O senhor no pode ter
em casa o amante da velhusca que ainda c est presa, porque esse
desgraado foi daqui muito mal para a Misericrdia, morreu, e
enterrou-se hoje pela manh.

- Engana-se, quem se enterrou foi o verdadeiro Castro Malta, o amante de
minha mulher; aquele que fora para aqui recolhido com uma rapariga
morena, de olhos pretos e cabelos lisos, isto , com minha esposa! Ora
essa!

- Pois eu lhe vou mostrar o que prova que o homem da velhusca morreu e
est enterrado na sepultura n. 0 ... Ora espere! Posso at lhe dizer o
nmero da sepultura...

-  intil - observei. -  intil. Sei donde parte o seu engano e
receio, tentando esclarec-lo, tornar mais embrulhada toda esta
histria.

- No! Se h novos enganos, convm p-los a limpo. Fale, fale por quem
, meu amigo.

- Pois ento saiba que o sujeito, que foi na qualidade de defunto para o
Cemitrio de So Francisco, no era um cadver.

- Como assim?

- Estava perfeitamente vivo.

- Impossvel! Pois se ele foi enterrado hoje, s nove horas da manh, e
aqui esto os documentos.

- No foi a ele que enterraram. Foi ao outro.

- Que outro?

- O tal Castro Malta, aquele que um dia antes fora solto com a mulher
que o acompanhava.

- Mas, como?

- Muito facilmente.

E eu contei ao empregado da Casa de Correo o que assisti no cemitrio.

- Jesus! exclamou ele depois. - Que trapalhada, minha Nossa Senhora! Que
trapalhada! Como diabo agora poderemos sair desta?...

-  exato! - confirmei. - O negcio est mal-parado!

- Quer saber de uma coisa? acrescentou o empregado. - Faa-me um
obsquio no toque nisto a pessoa alguma. Finja que no sabe de nada! Se
no se der uma palavra sobre o caso, ningum descobrir a verdade e a
histria cair no esquecimento! Que importa um Castro Malta de menos ou
de mais? Se no est enterrado o verdadeiro, foi algum enterrado por
ele. Tanto valem seis como meia dzia! Ao passo que, se formos a mexer
nessa embrulhada, a coisa pode complicar-se cada vez mais e redundar em
prejuzo de todos ns. Promete que no dar uma palavra sobre isso?

- Prometo.

- Bem. Nesse caso vou falar ao Chefe para pr na rua a velhusca, e fica
terminada a questo.

Coitado! Mal sabia ele que ento  que ela, a questo, ia deveras
principiar!

Minha sogra, logo que se pilhou solta, jurou que havia de vingar-se
daquela maldita Polcia, que, sem mais nem menos, lhe arrancara dos
braos o homem amado e, segundo ela supunha, mandaram-no para a
Misericrdia e da para o cemitrio morto.

- Ah! Isto no h de ficar assim! bradava Dona Leonarda, quando me
encontrou por acaso na rua. - Isto no h de ficar assim! Pois ento
prende-se a gente deste modo, e deste modo se d cabo de um homem! A
quem me hei de dirigir sei eu! Tenho alguns conhecidos na imprensa,
graas a Deus! E meu compadre Quintino h de mostrar-lhes de quantos
paus se faz uma canoa! Ho de ver o bom e o bonito! Scia de trapalhes!

E, como verificar V. S. a pela seguinte carta, no era debalde que o
demnio da velha dizia aquilo.



Sou de V.S.
 At.  cr. e ven. or



* * *

ROMANCE AO CORRER DA PENA

CAPTULO X

Antes de dar conta da primeira e memorvel entrevista que a terrvel
Dona Leonarda cometeu contra o seu compadre Quintino, peo ao leitor que
me acompanhe de novo  minha casa, onde iremos encontrar o nosso
extravagante Joo Alberto, estendido sobre a cama, a fumar
voluptuosamente um charuto dos que encontrara na algibeira do seu
substituto de morte.

- Ento? - disse-lhe ao entrar no quarto. - Como vai isso?

- Magnificamente! - respondeu ele. - Sinto-me melhor do que nunca! Ah!
Vejo que no h para a sade e para o bom humor como algumas horas de
morte e um passeio ao Cemitrio de So Francisco!... Gostei tanto da
brincadeira que, se fosse homem de recursos, havia de l ir todas as
semanas; dentro de um caixo e puxado pelo burrinho da Misericrdia!

- Bem - volvi eu. - Mas deixe por enquanto as consideraes, e passemos
uma revista nas algibeiras daquele fraque, porque desconfio que
encontrarei a alguns esclarecimentos teis para as minhas pesquisas.

- Ento o senhor quer me revistar as algibeiras?

- Perdo! no lhe quero revistar as algibeiras, as suas, mas sim as
algibeiras do fraque do homem que eu procurara.

- Que procurara? Explique-se!

- Sim. Aquele sujeito que ficou no cemitrio  o homem que eu procurara.

- Para qu?

- Negcios particulares...

- No! Desde que eu me apossei do lugar, da roupa, da carteira e do nome
daquele pobre homem, entendo que sou o seu nico representante sobre a
terra e estou disposto a responder por ele. Diga pois o que deseja do
meu infeliz cliente. Os seus negcios tratam-se comigo!

- J lhe disse que so negcios particulares, e s tratveis com ele
prprio. Quero dar uma busca nessas algibeiras, porque  natural que o
miservel trouxesse consigo algum documento dos seus crimes.

- Ah! Ele era um criminoso?

- Dos piores.

- E que lhe queria o senhor?

- Mat-lo.

- Sim?

- Com certeza.

- E no poderia o amigo, com um pouco de boa vontade, substituir essa
inteno por outra?

- Por outra?

- Sim; visto que agora, neste bom momento de repouso e ventre cheio, no
me seria muito agradvel cumprir com essa desagradvel formalidade...

- De que formalidade est o senhor a~ a falar?

- Da formalidade de morrer pelo meu homem. J no lhe disse que aceitei
com todos os nus o lugar vago que ele deixou no mundo?

- Vago parece-me voc!

- E sou.

- Vago e cnico!

- Tambm, mas confesso que neste momento no estou muito disposto a
morrer. Ponhamos de parte esta questo por enquanto e mais tarde
entraremos em qualquer acordo. Pode todavia ficar tranqilo, que se faz
muito empenho em matar o Castro Malta, eu no fugirei ao dever.
Descanse.

- O senhor  idiota.

-  exato talvez, mas veja se pode ir dar um passeio; tenho sono e
preciso dormir. V!

Dizendo isto o ressuscitado bocejava, encolhendo-se na cama e
aconchegando-se aos travesseiros.

- Olhe! - acrescentou ele - se faz muito gosto em revistar-me as
algibeiras, reviste-as durante o meu sono e, se quiser roubar o dinheiro
que a tenho, peo-lhe o obsquio de no roubar tudo. Deixe-me alguma
coisa...

E bocejava de novo.

Eu, para no lhe distrair o sono, deixei de responder e sai do quarto.

Da a pouco o bomio ressonava como um porco, e eu tratei de apoderar-me
da roupa que ele trouxera do cemitrio.

Principiei a revista pelo fraque, passei depois ao colete e afinal s
calas.

Encontrei o seguinte, cujos objetos inventariei em uma folha de papel,
que hoje se acha em poder do compadre de minha sogra:

Uma carteira com trs bolsos, havendo em um deles uma conta de charutos
da Casa Havanesa; um pedao de papel sujo e meio roto, no qual se liam
os seguintes versos:

Amei te um dia, oh! que triste sorte!
 Amei-te muito; amei-te por demais
 Visto que tu, mulher, eras mais forte
 Do que...

O resto no se podia ler.

Havia ainda nesse bolso da carteira um dcimo da loteria de So Paulo;
uma receita passada pelo Dr. Silva Arajo, e uma pequena trana de
cabelos castanhos amarrados por uma fita azul toda nodoada de leo
cheiroso.

No outro bolso da carteira encontrei duas notas de vinte mil-ris e uma
de dez; ao lado das notas um outro dcimo da loteria de So Paulo e uma
cautela do Monte-do-Socorro, que constava de - um broche de ouro em
forma de corao, guarnecido por um chuveiro de diamantes.

Calcule-se o interesse que me produziu essa denunciadora cautela, logo
que me saltou  cabea a idia de um broche justamente naquelas
condies, que possua minha mulher.

Foi j com as mos trmulas e o corao aflito que prossegui  busca no
terceiro bolso da carteira.

Encontrei uma fotografia. E adivinhe-se de quem!

Da Jeannite.

Nas costas do retrato lia-se escrito em bastardinho:

A mon petit bien aim.

E grudado ao fundo do bolso estava uma estampiIha do correio.

Passando  segunda algibeira do fraque, encontrei um mao de papis, que
trarei logo de inventariar, declarando pelo seguinte modo o que eles
continham:

1. - "Joo Alves. Se j no precisas da Nana, devolve-ma, que o dono
ma reclamou por duas vezes. - Teu, Costa Rosas."

2. - "O Sr. Joo Alves Castro Malta deve a Gaspar Leite & C. cinco
mil-ris, importncia de um jantar. - Recebi, 8 de Novembro de 1883. -
Gaspar Leite & C."

3. - "Joozinho. - Espero-te hoje. Meu marido est de servio. - Tua,
X."

A letra deste bilhete no me era conhecida, felizmente.

4. - "Ilmo, Sr. Castro Malta, - Segunda-feira mato um peru e minha
filhinha fiz anos. Venha jantar conosco. Se quiser pode trazer o Mello.
- P. S. No esquea o violo. - Seu, Mendona de Freitas."

5. - "Sr. Castro. Estou cansado de procur-lo em casa e na rua. O
senhor tem caoado deveras comigo; pensei que tratava com um homem srio
e tratei com um velhaco. Se at o dia 31 deste ms o senhor no pagar o
que me deve, entrego a sua conta a um procurador. - Thomaz Cardoso."

6. - "Joo Alves. - V se me aprontas o discurso. O dia do casamento
est a bater  porta, e tu bem sabes que eu prometi fazer um improviso.
- Teu primo e amigo, Cazuza."

O stimo documento era um artigo de fundo cortado da Gazeta da Tarde.  

8. - Seis cartes iguais de uma casa de mveis.

9. - Um lpis com bainha de metal.

10. - "Ir  Rua Primeiro de Maro n. 0 20, procurar no escritrio dos
fundos a ordem do Sr. Comendador Manoel da Silva Braga para me ser
entregue a chave de sua chcara, em Catumbi."

11. - "Amnia - 30 gramas. H 2 O -100 gramas.

Nessa algibeira havia mais dois charutos e um caderninho de mortalhas
Abbadie.

Passando ao bolso de fora do fraque encontrei um leno barrado de azul,
com um monograma composto de um R, um S e um B.

Este leno cheirava a gua-da-colnia misturada com fumo.

Nas algibeiras de trs havia um outro leno sem marca e enxovalhado e
uma caixa de fsforos de pau.

Nas algibeiras do colete encontrei um relgio, cuja corrente pendia a
uma das casas dos botes; uma fosforeira de platina cheia de fsforos de
cera; uma pequena chave de trinco e uma outra de gaveta; um botozinho
de colarinho, obra de madreprola; trs nqueis de 200 ris e mais dois
vintns embrulhados em papel; ainda um dcimo da loteria de So Paulo;
um limpador de unhas; um pedao de papel em que estava escrito ''Rua do
Conde d'Eu, n. 8" e mais um vidro esfumado de culos ou lunetas,

Nas calas encontrei quatro mil-ris em notas midas, oito cigarros, um
pedao de vela estearina, um canivete, e atrs, perto do cs, em uma
algibeira disfarada, havia um revlver de seis tiros, completamente
carregado e em descanso.

J desanimado, ia abandonar a roupa do miservel amante de minha mulher,
quando descobri o bolsinho da luva e, a, rebuscando avidamente,
encontrei uma carta que me elucidou mais do que todos aqueles documentos
e da qual darei parte ao leitor no seguinte captulo.

A essa carta devo eu o bom resultado das minhas pesquisas. Mas, no
precipitemos os acontecimentos.



CAPTULO XI



Eis a carta:

Joo Alves. - Acabo de obter as informaes que te prometi no momento em
que te recolheram  Casa de Correo, em companhia da tal Margarida.
Essa mulher fatal, por quem te apaixonaste e que ainda te dar muitas
ocasies de desgosto.

Logo que foste seguro pela Polcia, corri  casa da Jeannite e vim a
saber que no era esta a promotora da tua priso, como supunhas. mas sim
o Dr. Campello da Fonseca, autoridade que conheces muito melhor do que
eu.

Esse procedimento do Dr. Campello  sem dvida conseqncia do cime. O
homem est cada vez mais apaixonado pela Jeannite e, quando descobriu as
tuas relaes com ela, no trepidou, para se vingar; de prevalecer-se da
sua posio de autoridade policial.

 triste, mas  assim.

Por outro lado, a Jeannite, que estava a ferro e fogo contigo por causa
da Margarida, tratou de atiar as cleras do Campello e, com tanto
afinco trabalhou, que foste afinal dar com os ossos na Casa de Correo.

Em todo caso no desanimei e, auxiliado pelo nosso amigo comum, o
Tobias, que bem sabes  empregado na polcia, espero provar que o Castro
Malta, de que se trata, no s tu, e sim um vagabundo que mora
ultimamente com a me de Margarida.

Este plano no tem nada de mau, porque, graas as circunstncias
auspiciosas que o cercam, ele promete um resultado magnfico.

O vagabundo chama-se Joo A. Castro Matta, nome que se confunde com o
teu e a mulher que vive em companhia dele tem o mesmo nome da filha e
dizem que se parece com ela.

Ora, nestas condies,  muito fcil obrigar os teus perseguidores a um
formidvel engano; tanto mais se atendermos a que a Jeannite e o
Campello, aproveitando a tua priso, acham-se refugiados em Paquet. Ele
para escapar das vistas da sociedade e principalmente das vistas da
prpria famlia; ela para se esquecer de ti, que afinal s o nico homem
verdadeiramente amado por semelhante demnio.

Demnio, sim, que outro nome no merece aquela mulher, demnio, porque a
maldita jura e afiana que te h de fazer todo o mal possvel. Demnio,
porque a sua clera e o seu despeito no se saciam com o simples fato da
tua priso e querem a tua morte.

Tu, porm, no hs de morrer enquanto eu existir no mundo. Sou teu
amigo, prometo defender-te e ser mais fcil reduzirem-me a postas do
que levarem a efeito os seus diablico projetos.

Logo que te soltem, o que espero suceder amanh ou depois, corre  Rua
da Misericrdia n. ***, sobe ao segundo andar dessa casa, bate trs
vezes na porta que hs de encontrar no tope da escada e, quando te
aparecer um sujeito calvo, de barbas loiras, dize-lhe apenas.' "U, u,
catu." Esse sujeito te responder.' "To be at the threshold of the
door." E levar-te- imediatamente a um quarto, onde poders esconder a
tua amante e onde encontrars tudo de que precisares durante um ms, sem
sair de casa.  

Se no nos virmos antes de te encerrares a e, se porventura der-te na
veneta sair  rua, no tenhas o menor escrpulo em confiar Margarida ao
sujeito das barbas loiras, e, quando voltares a casa, repete a frase que
te ensinei para a primeira vez.

Aqui terminava a carta, isto : at aqui chegava o que dela se podia
ler, porque o resto tinha sido intencionalmente obliterado com qualquer
substncia corrosiva.

Quando terminei a leitura, volvi os olhos para o quarto: Joo Alberto
continuava a dormir a sono solto. Consultei o relgio, eram quatro horas
da tarde, guardei no bolso alguns dos objetos encontrados nas algibeiras
do Malta, outros escondi nas gavetas da minha secretria, pus o chapu
na cabea e sa, deixando a porta cuidadosamente fechada por fora.

Na rua principiei a notar que me doa o estmago; era falta de
alimentao; desde a vspera que eu nada havia comido.

Entrei num restaurante, pedi um jantar e deliberei metodizar os meus
raciocnios, enquanto mo servissem.

Achava-me ainda entre a sopa e o segundo prato, quando ouvi por detrs
de mim a voz de minha sogra, que conversava com algum.

Ela no dera comigo e, graas a um aparador que havia entre as nossas
mesas, podia eu escut-la  vontade, sem ser descoberto.

- Pois  como lhe digo - rosnava minha sogra. - Pois  como lhe digo.
Meu compadre Quintino afianou-me que isto no ficar no p em que se
acha! Ele j anda tratando da questo e, ou eu muito me engano ou a
coisa dar pano para mangas! Pois onde j se viu semelhante embrulhada?
Agora, s o que eu desejo  ver minha filha para lhe perguntar o que foi
feito do homem com quem ela fugiu do lorpa do marido, porque, segundo me
consta, esse homem tambm desapareceu, assim sem mais nem menos!

- Tambm desapareceu?

- Pois no! Desapareceu no mesmo dia em que foi solto.

- E ningum d notcias dele?

- Ningum. Uns entendem que ele fugiu, outros que foi assassinado por
meu genro; eu, porm, no aceito nenhuma dessas explicaes; a primeira
porque Joo Alves no fugiria sem me participar; e a segunda porque
conheo o gnio do marido de minha filha e sei que ele  incapaz de
matar quem quer que seja.

- A senhora se dava com ele?

- Com quem? com o Joo Alves?

- Sim.

- Dava-me. Conheo-o da casa da Jeannite, de quem fui engomadeira
durante dois anos.

- Essa Jeannite no  aquela do Dr. Campello?

- .

- E que foi feito dela?

- Sei c! Dizem que est ainda metida com o homem em Paquet.

Nisto o dilogo foi interrompido por um terceiro personagem, e minha
sogra passou a boquejar sobre novos assuntos. Eu, que j tinha
completado o jantar, sai do hotel e tratei de seguir a indicao da
carta.

Tomei para a Rua da Misericrdia e, durante toda a viagem, ia repetindo
mentalmente a frase simblica:

''U, u, catu!"

Quanto mais me aproximava do misterioso ponto indicado pelo singular
protetor de Castro Malta, mais acelerado me batia o corao.

Que me esperaria ainda? Que terrveis surpresas me aguardariam naquela
casa, a cuja porta tinha eu de bater trs pancadas, como se batesse 
porta de um templo manico?

Fiz-me forte e resolvi submeter-me ao que desse e viesse.

Afinal cheguei ao ponto.

Era um sobrado alto, j velho, de dois andares.

Atravessei a porta da rua, subi o primeiro lance de escadas, olhando
para todos os lados. No encontrei sinal de vida; aquilo parecia uma
casa habitada por espectros; um silncio de igreja deserta enchia os
corredores; meus passos ecoavam ali, como se eu caminhasse dentro de uma
catacumba e  proporo que me adiantava e subia, mais e mais avultavam
as sombras e o silncio.

Era quase noite quando cheguei finalmente  porta indicada pelo
misterioso confidente de Malta.

Bati a primeira e a segunda vez;  terceira abriu-se a porta e vi
defronte de mim um homem enorme, todo calvo e de longas barbas ruivas.

" agora!" - pensei num arrepio.

E levei instintivamente a mo ao peito.

 

CAPTULO XII



- U, u, catu! - gritei ao homem das barbas loiras.

Ele grogolejou imediatamente alguma coisa, que tanto podia ser a frase
inglesa apontada pela carta do Malta, como podia ser um simples espirro.

Em seguida virou-me as costas e ps-se a andar para o interior da casa.

Acompanhei-o.

Acompanhei-o, no sem o meu bocadinho de sobressalto, porque a cara do
tal sujeito no era das que mais inspiram confiana.

Antes pelo contrrio, na impassibilidade crnea do seu rosto havia
alguma coisa de funambulesco e uma expresso dura de velha ironia cozida
em genebra e calda de tabaco.

"Quem diabo seria aquele homem?" - ia eu a pensar. - "Quem diabo seria
aquele silencioso monstro de seis ps de altura, que me surgia defronte
dos olhos, como se eu estivesse num sonho?..."

E as mais estranhas consideraes principiaram a danar em volta de meu
crebro.

Afigurava-se-me que o sujeito era nada menos do que um gato, encantado,
vivendo dos ratos que apanhasse naqueles quartos desertos, e,  noite,
miando a sua tristeza pelos telhados da vizinhana.

Sim, que ele tinha olhos de gato. Bem o notei ao fit-los.

Olhos verdes, redondos, com a pupila muito sensvel e transformvel 
mais sutil alterao da luz.

 proporo que eu o contemplava pelas costas, mais me ia penetrando de
to extravagante convico. Afinal j no era um gato o que eu supunha
ver, mas sim um tigre, um verdadeiro tigre disfarado em homem.

Tanto assim que, na ocasio em que ele se voltou para me dizer: "
aqui", recuei dois passos e estive a perder os sentidos.

Ento o monstro ps-se a rir.

- Pois ele ri? - interroguei, mais pasmado do que se o visse trepar de
gatinhas pela parede. - Ele ri? O monstro!...

Este, como se adivinhasse o meu espanto, adiantou-se para mim e
ferrou-me os seus dois olhos de ona.

- Ah! - gemi, sentindo faltarem-me as pernas. - Estou aqui, estou nas
garras do bicho!

Mas o meu estado de ansiedade durou apenas alguns segundos, porque o
sujeito; estendendo uma das mos, segredou-me lamuriosamente:

- Deixe ver uns nqueis!

- Pois no! - respondi, correndo os dedos ao bolso. - Dou-lhe at coisa
melhor. Mas, antes disso, preciso que o senhor me fornea algumas
explicaes.

- Explicaes de qu?

- Em primeiro lugar, diga-me: onde estou eu?

- Aqui.

- Isso j sei, mas pergunto que casa  esta.

-  uma hospedaria.

- Hein?

- Hospedaria, sim senhor.

- E sem hspedes?

- Os hspedes dormem fora.

- E passam o dia aqui?

- Tambm no senhor.

- Ah! Compreendo... Vm s para comer...  casa de pasto.

- No! no h comida.

- Pior!

- Pois o senhor no compreende?...

- No; e peo-lhe que me d a explicao.

O tipo olhou duas ou trs vezes em torno de si e, chegando a boca ao meu
ouvido, soprou a seguinte frase:

- Isto  uma casa de jogo...

- Ah! J devia ter adivinhado... E como se chama esta espelunca?...

- Hospedaria do Gato.

- Do Gato, hem? Bem me adivinhava o corao... E a que horas principia a
jogatina?

-  meia-noite em ponto.

- E todos os jogadores dizem ao entrar a mesma frase que eu disse?

- Alguns; outros miam apenas. So os fregueses antigos.

- Bom! - respondi eu, entregando-lhe uma nota de dois mil-ris. - A tem
pelo que j falou, e ganhar outro tanto se me der as informaes de que
ainda preciso.

- Vamos l, mas espero que o senhor no nos comprometa. Bem sabe que
estas casas...

- Descanse, as informaes de que preciso s aproveitam a mim prprio;
trata-se de interesses particulares.

- Ento, estou s suas ordens.

- Por que razo me levou o senhor para aquela porta?

- Porque ali  a entrada para as salas de jogo.

- E onde est uma mulher que h dias foi confiada  sua guarda?

- Qual delas?

- Pois qu! O senhor tem muitas aqui?

- Tenho dez.

- Dez mulheres! Virgem Santssima!

- E o senhor no poder falar a nenhuma delas sem dar primeiro o sinal
competente...

- O sinal?

- Sim, ns aqui chamamos sinal s palavras convencionadas entre duas ou
mais pessoas para se encontrarem c dentro em lugar seguro.

- Mas se eu lhe dissesse como  pouco mais ou menos a que eu procuro, o
senhor no poderia?...

- Impossvel! Nem mesmo se eu quisesse... no as conheo... Elas chegam
em geral cobertas com um grande vu, e s vezes trazem mscara...

- E nunca do o nome?

- Nunca.

- E os homens que as acompanham?

- Esses, esses tm todos uma alcunha, que s pode ser compreendida por
mim, ou por meu patro ou por algum velho freqentador da casa.

- Diga algumas dessas alcunhas.

- Para qu? Isso no lhe serviria de nada. Imagine os nomes mais
vulgares e os ttulos mais comuns, junte-os e ter uma lista completa
dos cinco mil homens que freqentam esta casa.

- Cinco mil?

- Quando menos.

- E todos eles aparecem juntos?

- No. So at bem poucos os fregueses de toda a noite. Muitos
apresentam-se uma vez por semana; outros, duas; outros, trs; outros vm
por fruta. As vezes a casa se enche; outras no. Depende muito do dia.

- E quais so os dias em que h mais gente?

- Nas vsperas de festa principalmente. E, quando no h festa, nos
sbados e domingos.

- Paga-se entrada?

- No, paga-se apenas o barato.

Nisto, fomos interrompidos por uma campainha eltrica.

-  uma das tais sujeitas que me est chamando... - explicou o homem. -
Com sua licena...

- V, mas volte.

- Decerto. Venho j.

"Muito bem!..." - disse eu comigo, assim que me vi sozinho. - "Aqui
est, onde veio parar minha mulher, se no mente aquela maldita carta."

Instintivamente levei a mo ao bolso e saquei a denunciadora folha de
papel que me conduzira at ali.

A tal frase misteriosa, de que me falara o tipo de barbas loiras, devia
estar na parte da carta corroda pelo cido.

- "E no poder eu adivinhar o que est escrito debaixo desta mancha
amarela!..." - pensei. - "Daria uma perna ao diabo para poder saber o
que aqui est!...''

Cheguei-me mais para junto de uma janela que havia a quatro passos e,
levando o papel  altura dos olhos, soltei um grito de prazer.

E que, pondo-se a carta contra a luz, podia-se distinguir o que estava
escrito debaixo da mancha do cido.

Foi com grande dificuldade que li o seguinte no meio de outras coisas:

"Quando o homem das barbas loiras te perguntar a quem desejas falar,
responde-lhe unicamente..."

Nesta ocasio, porm, o maldito cara de gato bateu-me uma palmada nas
costas, e eu, com o susto que tive, deixei cair a carta pela janela.

- Maldio! - exclamei.

E, debruando-me sobre o peitoril, olhei para baixo.

A janela dava para um cortio e a preciosa carta cara dentro de uma
tina cheia d'gua.



 

CAPTULO XIII



Como principiava a fechar-se a noite, no perdi tempo, disse ao cara de
gato que me esperasse um instante e lancei-me de carreira para o andar
de baixo.

Entrava-se no grande cortio por um largo porto quadrado, em cuja parte
superior havia uma lanterna enegrecida de fumo e coberta de p.

A direita e  esquerda um correr de casinhas conduzia a um coradouro,
cheio de gamelas e jiraus de madeira, sobre os quais viam-se algumas
peas de roupa, estendidas ou enrodilhadas.

Uma mulher de enormes ancas, a saia apanhada nos rins, a cabea em um
leno de alcobaa, os ps  vontade em um grande par de tamancos, os
braos arremangados at as axilas, retirava de uma corda, suspensa em
toda a extenso da estalagem, a roupa que levara a secar durante o dia.

 proporo que ela ia recolhendo a roupa, lanava-a num vasto cesto de
vime, que tinha ao seu lado.

-  boa mulherzinha - disse-lhe eu -, vossemec d-me licena que eu
tire ali daquela tina um papel que me caiu l de cima?

- Pois no, senhor meu genro! - respondeu ela, voltando-se para mim.

- Minha sogra!...

- Em carne e osso!

- A senhora num cortio?...

-  verdade! E que h nisso de extraordinrio? Antes lavar que pedir!

- Sim, mas podia lavar na sua prpria casa, como fazia dantes, e no vir
meter-se aqui, numa estalagem, num lugar onde se rene o que h de pior
no Rio de Janeiro.

- Ora! deixe-se de bazfias! Faltou-me gua em casa e no convinha
perder a freguesia. Assim, disse eu comigo: "Pago um cruzado por dia 
Mariquinhas Pep e lavo na estalagem dela a minha roupa."

- E desde quando est lavando aqui?

- H poucos dias; desde que falei pela primeira vez ao Compadre
Quintino. Mas, voc no disse que vinha buscar um papel que lhe caiu das
mos? E bom ir busc-lo antes que ele se extravie.

- Tem razo - disse eu, indo buscar a carta. E, ao voltar para junto de
minha sogra, perguntei-lhe:

- Sabe o que me trouxe a esta casa?

- Diga.

- Vim  procura de minha mulher.

- De minha filha?

-  verdade.

- E encontrou-a?

- Ainda no sei, esta carta  que vai decidir.

- Pois no volte l, que perde o seu tempo.

- Como? Explique-se.

- J lhe disse o que tinha a dizer. No v, que perde o seu tempo. Se
quiser encontrar Margarida, espere um pouco por mim. Deixe-me recolher
esta roupa e podemos ir juntos.

- Ao lugar onde ela est?

- Sim senhor. Eu me comprometo a restitu-la. E, olhe, o que lhe afiano
 que ela vai para as suas mos to pura ou mais do que quando fugiu de
casa.

- Calculo!

- Calculo, no, coitadinha! Que ela no cometeu a menor falta; apenas
foi vtima de uma trapalhada, da qual o senhor  o nico culpado.

- Homessa agora  melhor! Pois ainda em cima sou eu que levo a culpa?

- Com certeza, mas deixe-me acabar com isto, que j lhe dou trela.

Dai a meia hora saa eu da estalagem com minha sogra,. que acabava de se
preparar para isso.

Ela chamou um carregador de sua confiana, ordenou-lhe que levasse o
cesto de roupa para o Campo de Sant'Ana, e, atirando um xale sobre os
ombros, segredou-me ao ouvido:

- Antes de tudo, vamos procurar meu compadre.

- Onde o vamos procurar?

- Na Rua do Ouvidor.

- Na redao dO Paiz?

- Ai, ai!

A idia de entrar na redao dO Paiz ao lado de minha sogra pareceu-me a
mais ridcula do mundo, mas no havia que hesitar: a mulher prometera
restituir-me a filha e isto era todo o meu empenho.

Ao chegarmos ao escritrio da folha, ia perguntar a um moo loiro que
estava ao balco, se era possvel falar ao Sr. Quintino, quando minha
sogra me puxou pelo brao e exclamou:

- No esteja a perder tempo! Quando se quer falar com algum vai-se logo
subindo!

E, antes que eu a detivesse, j o demnio da velha galgava as escadas e,
com um desembarao dos diabos, levantava pouco depois o reposteiro da
sala privada da redao, gritando para dentro:

- O compadre d licena?

- Entre - respondeu o redator-em-chefe da folha.

Ela no esperou segunda ordem e ganhou a sala, exclamando para mim, que
ia atrs:

- Entre voc tambm, meu genro!

A estas palavras o redator espichou levemente a cabea e mediu-me com o
seu olhar penetrante e desconfiado.

- Que deseja a senhora? - perguntou ele.

- Venho para saber que h de novo sobre o homem.

- Se a senhora tivesse lido O Paiz, saberia que se vai proceder amanh 
exumao do cadver no Cemitrio de So Francisco Xavier.

- De que cadver? perguntei empalidecendo.

- Do suposto Castro Malta.

- Pois  tempo perdido - disse eu -, porque ele l no est.

- Disso j sei eu! - acrescentou o Sr. Quintino -, mas quero levar a
questo avante.

O Castro Malta est em minha casa. Posso apresent-lo, quando V.S.
quiser.

- O senhor est louco?

- Digo a verdade. Se V.S. quiser a prova, eu o trarei amanh aqui.

- No. Quero que traga hoje mesmo - respondeu o redator, correndo a sua
mo plida por um pesa-papis que estava sobre a mesa e representava uma
luva amarrotada.

- Mas hoje mesmo no  possvel - retorqui. Daqui tenho de ir com minha
sogra a...

- No! - atalhou esta. - No! Se voc diz que o Castro est em sua casa,
vamos l em primeiro lugar. Quero v-lo!

- Mas, esse Castro - perguntou o Sr. Quintino a Dona Leonarda -, esse
Castro no  o mesmo que a senhora me afianou haver morrido na Casa de
Misericrdia?

- , ou pelo menos deve ser.

- Mas ento como est vivo?

- Ora essa! porque no morreu!

Tive mpetos de confessar ao redator tudo que sabia a respeito do fato
do Cemitrio; mas por esse tempo a questo Castro Malta havia j tomado
tais propores entre o pblico que eu, receoso de futuros incmodos,
resolvi no dar uma palavra, arrependido at de haver feito a declarao
que me escapara dos lbios.

- Bem! - disse o Sr. Quintino - amanh. Espero-os aqui s 11 horas do
dia. No faltem.

- E se o homem no quiser acompanhar-me? - perguntei.

- Nesse caso irei eu ao encontro dele. Olhe!  at melhor que eu v
justamente. Deixe-me o nmero de sua casa e espere amanh por mim s
nove horas.

- Da manh?

- Sim, senhor.

Fizemos as nossas despedidas ao Sr. Quintino e, j na Rua do Ouvidor,
quis convencer a minha sogra de que devamos ir primeiro ao encontro de
Margarida, mas a velha no cedeu e puxou-me para os lados de minha casa.

"Em que diabo de trapalhada me meti!..." - pensava eu pelo caminho. -
"Afinal a questo caiu j no domnio pblico; de dia para dia ela toma
um carter mais srio, e no quero pensar em quais sero para mim as
conseqncias de tudo isto! Ah! Margarida, Margarida, mal sabes tu o
martrio que me tens feito passar!...''

S s nove da noite chegamos a casa.

Minha sogra arfava de impacincia ao meu lado, enquanto eu abria a
porta.

- Quem ? - perguntou uma voz de dentro.

- Ai! o meu rico homem! - exclamou a velha, levando aos olhos uma das
pontas do xale.

E, apesar da escurido, enfiou de carreira pelo corredor.



 

CAPTULO XIV

Tive de assistir a uma cena de ternura: Dona Leonarda, mal avistou meu
hspede, abriu em trs pulos uma carreira que foi acabar nos braos
dele.

Apertou-o, beijou-lhe os lbios, chorou-lhe sobre o peito a sua velha e
crnica saudade.

Castro Malta deixava-se amimar, sem uma palavra de oposio ou de
ternura.

- Tu me amas? - perguntou-lhe ela com a voz sumida e estrangulada de
comoo. - Tu me amas, Castro?

- Pois no! - respondia ele, j impaciente. E, voltando-se para mim,
enquanto a velha o estreitava nos braos:

- Eis a vida, meu amigo! Eis a vida! Pense e reflita sobre este caso e
diga-me depois a razo, por que sou to estremecido por esta mulher.

- Castro! - repreendeu a velha, abaixando os olhos, muito sria.

- Mas se  assim... - ia continuar o ressuscitado, quando eu, vendo que
a cena ameaava prolongar-se por muito tempo, resolvi cort-la, dizendo
ao amoroso casal que estava defronte dos meus olhos:

- Bem, jovens pombos apaixonados, agora que j se abraaram  vontade,
agora que, segundo julgo, j no h restos de saudade viva dentro de
nenhum de vocs dois, vamos tratar do que a todos nos interessa.

- A mim nada interessa mais do que isto! - afirmou minha sogra.

- E a mim nada interessa absolutamente! - acrescentou o Castro,
deixando-se cair em uma cadeira.

- Dou-lhes a minha palavra de honra em como estou caindo de fome. Juro
que um pedao de carne assada no me faria agora mal de espcie alguma,
mas...

- Mas... - ajudei eu, verdadeiramente intrigado.

- Mas o qu, Sr. Castro?

- Mas...  verdade! Mas o qu?... Para lhes falar com franqueza, j no
me lembro do que dizia...

- Lembro-me eu - observei, reunindo na memria os fragmentos esparsos da
conversa. - Lembro-me eu... O senhor dizia que...

- Nada! No! - atalhou Castro. - No me lembre nada! Deixemo-nos disso!
Para que diabo havemos de lembrarmo-nos de coisas que no nos
interessam, isto , que no interessam ao senhor, porque a mim nada,
absolutamente nada, me interessa!...

- Isso j o senhor repetiu mais de vinte vezes!

O maluco ia dar-me rplica, mas teve de sust-la com a chegada de
algum, que acabava de entrar.

Todos ns trs voltamo-nos para o novo personagem.

Era o Sr. Quintino, compadre de minha sogra.

- Ah!  o senhor, compadrinho? - gritou esta. - Que boa surpresa!

-  verdade - respondeu o redator dO Paiz, dirigindo-se mais ao gesto de
curiosidade que eu fazia do que mesmo s palavras de Dona Leonarda. - 
verdade! Sou eu, que, descobrindo o grande equvoco em que navegam os
senhores todos, apressei-me a vir desvend-lo!

- Como?! - pinchou a velha. - Como, seu compadre?

- Quer dizer - continuou o famoso jornalista. - Quer dizer que a senhora
e este senhor seu genro, se me no engano, tm sido vtimas de uma
enorme trapalhada.

- No compreendo! - afiancei.

- Nem eu! - reforou a velha.

- Explicar-me-ei! - tornou o Sr. Quintino. - Explicar-me-ei!

- Pois ento veja se anda com isso! - disse Dona Leonarda, dominada por
grande aflio. - Veja se anda com isso, porque dou-lhe a minha palavra
de honra que j estou farta de toda esta porcariada de Castros Matras e
Maltas, e j no me sinto disposta a aturar mais semelhante mexericada!
Arre! Arre! Que at fede! At fede esta questo!

- Bom! bom! - cortou o jornalista. - No vale a pena arreliar-se por to
pouco, minha senhora. A minha visita a esta casa no teve por fim dar
incmodos, mas pura e simplesmente esclarecer o engano que havia.

- Pois esclarea por uma vez! - bradou a velha.

- O Castro Malta de que fala a senhora - explicou Quintino -, assim como
o Castro de que fala o senhor seu genro, nada tm de comum com o Castro
Malta de que fala o jornal de que sou redator-em-chefe!

- Como assim?

- Quer dizer que nenhum desses dois Castros  o meu, nenhum desses 
aquele que O Paiz procurou descobrir! Pelos documentos, que me acaba de
fornecer a Santa Casa de Misericrdia e pelos dados obtidos pelo senhor
promotor pblico, sabe-se que o Castro Malta, recrutado, o Castro Malta
recolhido ao hospital, o Castro Malta falecido, enterrado e no
encontrado no cemitrio, nada tem de comum com as pessoas de que me
falaram vossemecs!

- Ora essa! - resmungou minha sogra. - Ora essa! Mas em todo caso, no
tenho outro remdio seno acreditar nas suas palavras, porque o Castro
de que me fala o Sr. Quintino  um Castro morto, ao passo que o Castro,
de que eu falava, o meu rico Malta, est mais vivo do que um azougue!

- Bem! - retorqui. - Mas tudo isso no me esclarece no ponto em que eu
desejo ser esclarecido! Para mim, tanto se me d que o Castro Malta
fosse assassinado na Polcia, como se morresse tranqilamente sobre sua
cama, ao lado de sua mulher e de seus filhos; o que me interessa, o que
me preocupa,  descobrir quem  e onde paira o Castro Malta que seduziu
minha mulher.

- Por esse respondo eu! - atalhou a velha.

- Ento responda! - disse, avanando sobre ela.

- Ei-lo! - exclamou a velha apontando para o meu hspede que dormia j a
sono solto estirado na cadeira.

- Este?! - perguntei pasmo. - No!  impossvel! No creio.

- Pois ento, oua e ver!

 

CAPTULO XV

A velha endireitou os culos, fungou trs vezes, repuxou as saias nos
rins e disse, apontando para o ressuscitado:

- Eis o autor da questo'

- Este? - bradei, espantado. -  impossvel!

- Vai ver - replicou a velha -, vai ver!

- No creio - repliquei. -  impossvel, repito!

- Impossvel o qu? - perguntou-me o acusado.

- Impossvel que seja o senhor o autor da grande intriga que se tem
feito a respeito de Castro Malta, de mim e de todas as pessoas que se
interessam nesta questo.

- Que questo? - perguntou-me o Castro.

- Ora! que diabo de questo pode ser? A questo Castro Malta.

- Castro Malta?

- Pois o senhor no conhece a questo de que lhe falo?

- Eu no conheo seno o que me ensinou o Precioso, o meu mestre.

- Visto isso - acrescentei -, o senhor no est a par da grande questo
que nos trouxe aqui!

- Juro-lhe que no.

- No sabe do que se trata?

- No!

- Nunca escreveu cartas a minha mulher?

- Nem a sua, nem a mulher alguma!

- Ento - exclamei, voltando-me para Dona Leonarda -, ento como
afianou a senhora que este homem era o autor de toda aquela trapalhada?

- Por uma razo muito simples, porque tenho as provas de que ele  o
nico autor da histria.

- Apresente-as.

- No  preciso - atalhou Quintino -, eu explico tudo.

- Este senhor - acrescentou, voltando-se para mim. - Este senhor no 
mais que um simples romancista.

- Como? - disse eu.

- Sim, no  mais do que um simples romancista. A sua inteno dele era
somente fazer um romance, um romance para A Semana e, na falta de melhor
assunto, agarrou o meu!

- O seu?

- Sim, o meu, a minha questo, o meu Castro Malta.

- Como  l isso? - perguntei.

- Pois no - respondeu-me Quintino. - Pois no! O senhor entendeu fazer
um romance de uma questo sria, que levantei pelO Paiz e comeou a
escrever cartas disparatadas e tolas para A Semana.

 - Eu? - interroguei.

- Sim, sim, o senhor! - bradou o chefe da redao dO Paiz agarrando-me
pelo brao. - O senhor! que, sem o menor escrpulo quis fazer de um
assunto srio um pretexto para novelas de mau gosto!

- Repare que me ofende!

- Qual ofende, nem meio ofende! O senhor j ouviu muito pior do Jornal
do Commercio e nem por isso deu o cavaco.

- Sim, mas isso  outro caso! O Jornal no  responsvel por coisa
alguma. Ele no sabe o que faz, coitado!

- Em todo caso, voltando  questo, posso afirmar que o senhor no passa
de um especulador que se apoderou de uma questo que lhe no pertence. O
senhor nunca foi casado; nunca teve o emprego pblico de que falou na
sua carta; nunca teve relaes com a tal Jeannite de que por vrias
vezes tratou, e muito menos teve relaes com empregados da Santa Casa
de Misericrdia.

- O senhor est me ofendendo!

- Ora qual, meu amigo, um romancista nunca se pode dar por ofendido com
estas coisas; um romancista  um grande mentiroso, que vive a empulhar o
pblico com as suas patranhas. Hoje afirma que o diabo  cor do cu e
amanh jura que Deus  cor de fogo!

- Eu nunca fiz em minha vida afirmaes dessa ordem!

- Se no fez dessa ordem fez piores. Leia as suas prprias obras,
estude-as com ateno; ver que no  mentira o que digo.

E o Sr. Quintino, voltando-se para minha sogra, acrescentou:

- Creia, minha senhora, que falo verdade. Este homem que est ao seu
lado  um intrigante,  um enredador,  finalmente um romancista!

- Eu?!

- Sim! sim, o senhor, e escusa negar. Perguntem  Folha Nova, perguntem
 Gazeta de Noticias, perguntem  Gazetinha,  Gazeta da Tarde,
perguntem ao prprio Jornal do Commercio, e todos esses rgos afirmaro
o que avancei.

- Estou desmoralizado! - exclamei, procurando uma sada.

Mas,  porta de entrada se haviam reunido vrios reporters e homens de
letras que me tolheram a passagem.

Todos riam, e eu sentia j o suor correr-me pela fronte e entranhar-se
pelos mistrios do colarinho.

Afinal, vendo que assomavam  porta o Valentim, o Filinto de Almeida, o
Alfredo de Souza, o Luiz Murar, o Urbano Duarte, o Artur Azevedo, o
Alberto de Oliveira, o Raimundo Corra, o Dermeval da Fonseca e muitos
outros rapazes conhecidos, no tive remdio seno confessar tudo e
abaixar a cabea, resignado ao que desse e viesse.

- Ento! - volveu para mim o Sr. Quintino -, creio que defronte desta
gente no ter o senhor a mesma petulncia de querer fazer acreditar que
escreveu de boa f tais cartas para A Semana. Vamos, explique-se, senhor
romancista!

- Bem! - respondi, fazendo-me plido e puxando para trs os meus
cabelos. - Bem! vou falar com franqueza. Ouam-me com toda a ateno.

O auditrio armou um grande ar de concentrao; cada uma das pessoas
presentes concheou a mo na orelha e inclinou-se para o meu lado.

Senti-me intimidado. Bati na testa, revirei os olhos e disse:

- Meus senhores, querem encontrar a explicao de toda essa histria?
Querem? Pois leiam um romance que vai aparecer no rodap dO Paiz.

- E como se h de chamar esse romance? - perguntou-me o Sr. Quintino.

- Ora faa-se de novas! - respondi eu. - O senhor bem sabe qual  o
ttulo do romance que vou publicar no seu jornal.

E, dizendo isto, dei por acabado este livro, que no  um romance, nem
um tratado cientfico, nem um catecismo, nem um panfleto poltico, nem
um dicionrio, nem to-pouco um livro de memrias; mas simplesmente - um
prmio para os assinantes dA Semana.  



  
